O CULPADO
                                                                                                                                                                   
— Doutora, telefone para a senhora. É do colégio do seu filho. Pelo jeito, aconteceu alguma coisa. A pessoa está nervosa.

— Pode passar, Rita, rápido.

Sei que lá vem bomba. O que será que Luiz Eduardo aprontou desta vez? Esse meu filho... é meu tesouro, mas me apronta cada uma.

— Alô. Sim, é Ana Lúcia. Claro, irei sim. Às dezesseis fica bem? Estarei aí. Obrigada. Mas ele está bem?

Chamei a secretária.

— Desmarca as duas últimas consultas. Preciso sair mais cedo. Vê quais os horários disponíves e oferece às duas. Liga para o Augusto e diz que precisei ir ao colégio.  De lá, vou para casa.

Enquanto dirigia, uma série de preocupações iam sendo listadas. Pelo jeito, algo de grave aconteceu. Normalmente, só me chamavam quando necessário.  

Estacionei no pátio interno e fui tentando advinhar o que teria ocorrido, enquanto chegava à secretaria.

— Sou a mãe de Luiz Eduardo. A diretora me aguarda.

Acompanhou-me até o gabinete. Preparei-me para um sorriso e um sonoro “boa tarde”, quando a cena fez morrer meus propósitos. De pé, a diretora, Irmã Serafina, vestida a rigor, parecendo um urubu de casaca, a seu lado, a vice no mesmo traje, o diretor de disciplina e a orientadora educacional, com as caras mais amarradas do mundo. Pareciam prontos para um funeral, o que aumentou minha preocupação.

— Sente-se, por favor, balbuciou um dos urubus.

Os demais sentaram. Meu coração acelerou. O caso era pior do que as maquinações que fizera até chegar ali.

— O que aconteceu? Luiz Eduardo está bem?  Digam onde está meu filho. Quero vê-lo agora.

— Acalme-se. Ele está bem, pode ficar sossegada.

— Mas então...

— O caso é que seu filho teve um comportamento criminoso.

— Como assim, criminoso? Feriu alguém, furtou, brigou? Digam-me logo. Querem me matar nesta ansiedade?

— Trata-se de um problema de disciplina. Nunca aconteceu caso semelhante neste estabelecimento de ensino. A senhora sabe que primamos pela ordem, e orientamos nossos alunos no mais rigoroso regime de austeridade.

— Sei, sei. Sei de tudo isto. Mas o que ele fez de tão assustador?

Olharam-se, como se nenhum deles tivesse coragem de dizer. O diretor de disciplina levantou-se, deu alguns passos, enquanto a Irmã Severina envermelhava.

— É que... ele... foi surpreendido fazendo sexo oral com uma coleguinha.

Minha primeira vontade foi de dar gargalhadas. Que alívio. Somente isto? A tensão inicial ia se desfazendo. Mas fiz um esforço enorme para me controlar, para não rir na cara deles. Poderiam interpretar como zombaria e piorar a situação. Luiz Eduardo, meu filho. Esse pessoal está louco, não há dúvida.

— Isto é uma afronta... - começou a vice.

Os olhares me crucificavam. Senti um calor subindo pelas pernas. Já sei, pensei, é a chama do inferno para uma mulher que teve a coragem de colocar no mundo tal monstruosidade. Somente a fogueira será o bastante para o castigo. Eles estão paralisados, de olhar fixo, esperando a chama me consumir. Sou uma bruxa, mulher do demo, feiticeira malévola, diante dos membros da santa inquisição. Mas tinha direito à defesa. Ergui-me sobre os saltos finos, podia ser uma arma, se necessário, e dei alguns passos. Aquela vontade doida de gargalhar insistindo. Luiz Eduardo, tesouro da minha vida, o que me aprontaste?

Interrompi a vice.

— Com todo o respeito, os senhores devem estar loucos. Como querem que acredite numa coisa desta? E que tipo de cuidado dispensam no Maria Imaculada de Jesus que permitem acontecer tal fato? Deixo meu filho aqui para ser cuidado, educado, com a certeza de que não sofrerá nenhum abuso em sua integridade, e os senhores se descuidam a este ponto? Por que não o protegeram?

— A senhora está invertendo os papeis. Os acusadores somos nós. Que tipo de educação dá a ele?

Eu ainda sobre os saltos. De dedo em riste, apontei para o diretor de disciplina.

— E onde o senhor estava, naquele momento?

Quem falou, finalmente recuperando a voz, foi a diretora.

— Nós já conversamos com os pais da menina ofendida...

— Ofendida? Onde já se viu?

— ... e eles vão tirá-la daqui. Não conseguimos convencê-los a deixá-la. Perdemos uma ótima aluna, cujos pais também aprimoraram a educação aqui.

— Talvez por que minha educação não tenha sido aprimorada aqui, podem acreditar que não farei o mesmo. Claro que não. Meu filho vai ficar. Luiz Eduardo gosta do colégio. E tenho certeza de que não foi o culpado. Essas meninas...

— Pensamos que a senhora deverá ter uma boa conversa com ele, para que fato semelhante não venha a se repetir. Se a notícia se espalha, pode denegrir a imagem de nossa instituição.

— Fiquem tranquilos. Posso levá-lo? De qualquer modo, já está quase no final do período.

Fui me despedindo, ainda com vontade de gargalhar. Esse meu filho, meu amado, meu garotão, saiu melhor do que a encomenda.

A orientadora educacional acompanhou-me pelo extenso corredor, sem dizer nada. Meus saltos faziam mais barulho do que o necessário. De propósito. Queria acordar os fantasmas do vetusto estabelecimento de ensino, onde urubus ainda governavam.

Aguardei que Luiz Eduardo reunisse o material. Ele correu, abraçamo-nos, e deu-me um beijo demorado, sonoro. Parecia feliz, os olhos brilhando, assim como os cabelos loiros sob a luz do sol.

Segurou-me a mão e fomos caminhando para o carro. Ele saltitava, contente. Apertou fortemente meus dedos e, com um sorriso brejeiro no rosto de três anos, disse:

— Mãe, eu beijei a pepeca da Priscila.


 
 
MADAGLOR DE OLIVEIRA
Enviado por MADAGLOR DE OLIVEIRA em 23/06/2013
Reeditado em 24/06/2013
Código do texto: T4354873
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