EXISTÊNCIA EM PAR

As gêmeas Carina e Marina jamais souberam o que é existir como ser singular. Não que dividissem tudo; multiplicavam tudo por dois. Além de serem idênticas, cor dos olhos, pele, cabelos e até estatura, vestiam-se e enfeitavam-se igual. Depois da morte dos pais, quando tinham vinte anos, e sem outros irmãos, ficaram ainda mais interdependentes. Receberam um vasto patrimônio de herança, que lhes possibilitava uma vida inteira de conforto e isenta de preocupações financeiras. Moravam numa bela casa, no bairro mais caro da cidade. Ali passavam seus dias de amenidades e coloridos, alentando eventuais carências entre si, trocando afetos, enaltecimentos, afagos e orgasmos:

– Ah, Carina, minha amada irmã, nada me falta com você aqui, ao meu redor e dentro de mim. Este amor completo que nos une é o bastante para me fazer plena.

– Minha querida Marina, você também é meu sentido, minha felicidade, minha plenitude, meu motivo para existir.

O tempo seguia devagar. Manhãs, tardes e noites eram calmamente contempladas. Sempre. Sempre. Resolveram não ter empregados domésticos, apenas uma empresa cuidava da segurança do lugar, mas os profissionais nem mantinham contato com as proprietárias. Elas cuidavam da limpeza, da cozinha, da lavanderia, de quase tudo, só não se acertavam com o jardim. As plantas estavam murchas, as flores, tristes, muito inseto. Então, decidiram contratar um jardineiro. Apesar de ter à disposição vários serviços de recrutamento, fizeram questão de elas mesmas selecionarem o profissional. Tomadas todas as necessárias precauções, receberam inúmeros candidatos. Entre eles, um se destacou de forma especial e conquistou confiança e simpatia das irmãs. Era Miguel, um mulato bonito de uns trinta anos que, sem família e criado pelos patrões fazendeiros do interior, decidira mudar-se para a cidade grande, na tentativa de alcançar uma vida menos escravizada.

Numa clara manhã de primavera, as gêmeas passeavam de mãos dadas pelo jardim. Aproximaram-se do jardineiro, que cumpria seu ofício com a fisionomia de quem cuidava de anjos; encantado, sereno e feliz. Disseram juntas:

– Bom dia, Miguel!

Incrível! Até as vozes eram idênticas!

– Bom dia, senhoras!

Marina protestou delicadamente pelo “senhoras”, depois libertou o sorriso de sol. Carina o elogiou:

– É admirável o amor que demonstra ter pelas flores. Dá gosto vê-lo trabalhar. Depois que chegou, nunca mais encontramos uma florzinha feia neste jardim.

– Elas tem que sentir que a gente preocupa com elas, igualzinho pessoa mesmo. Aí, fica metidas, querendo aparecer. Tenho certeza que elas sabe do meu cuidado, porque uma tem ciúme quando dou mais atenção pra outra. Mas eu amo todas igual. E quando é rosa da mesma roseira, aí então é que não tem diferença.

As gêmeas se calaram e passaram alguns instantes apenas contemplando o homem. Em seguida se olharam, embaraçadas, na tentativa inútil de ocultarem seus pensamentos.

Iniciou-se ali uma certa competição entre elas. Separadamente, iam ao jardim várias vezes por dia procurar assunto com Miguel e admirá-lo tratando das flores. Ele se confundia, nunca sabia ao certo quem estava ali, se Carina ou Marina, e elas não faziam questão deste discernimento, até se divertiam. Estavam disputando, sim, a atenção do moço, embora de maneira secreta, uma não admitia tal verdade para a outra. Envolvidas naquela brincadeira perigosa, com o passar do tempo, começaram a se desentender sobre as mínimas coisas. Ficaram assustadas, mas não podiam controlar-se. Mágoas e invejas se apossaram de seus sentimentos e a harmonia em que viviam fez-se ameaçada, principalmente quando perceberam que, aos poucos, o jardineiro aprendia a distingui-las a partir de minúcias sutis, como um simples movimento de mão. Elas se amavam, se amavam muito e sempre se complementaram, não era justo que um intruso chegasse, fazendo tudo desmoronar. O amor entre as moças era maior que qualquer atração ilusória. Depois de tantas conversas e ponderações, Carina e Marina descobriram uma forma de eliminar o que as incomodava.

Noite quente, em pleno verão. Após concluir o dia de trabalho, Miguel foi surpreendido com a presença das gêmeas à porta do quartinho construído especialmente para abrigá-lo, uma vez que não possuía residência sua na cidade:

– Marina e eu queremos que você vá beber algo com a gente lá em casa, hoje mais tarde.

– Nó, tô honrado demais com o convite, mas eu fico sem jeito.

– Veja, Carina, como ele é tímido. Deixe de bobagem, nós o esperamos às dez horas e assunto encerrado.

– Tá bem.

Às dez em ponto, o jardineiro, bem vestido e perfumado, tocou a campainha. As duas juntas correram para atender. Que espanto! Que maravilha! Miguel nunca esteve tão lindo e atraente. Seus braços e peito pareciam ainda mais fortes, a pele ainda mais morena! A postura esguia, de macho saudável, derreteu as irmãs com uma espécie de encanto submisso. A convite das patroas, ele entrou e se acomodou no sofá. Serviram-lhe vinho e iniciaram uma agradável conversa que se estenderia por longas horas, até tocarem em temas mais ousados e íntimos. As gêmeas, muito astutas, começaram com perguntas sobre a vida afetiva do jardineiro, até chegarem à sua vida sexual. Com uma simplicidade comovente, o moço embaraçou-se por completo, gaguejou, tossiu, mas aos pouquinhos foi se soltando, ajudado pelos efeitos inebriantes do vinho e do imenso desejo que sentia pelas duas mulheres naquele momento. Repentinamente, todos se calaram, elas se aproximaram do homem e o acariciaram, beijaram sua boca, morderam seus braços, o pescoço, tocaram em seu pênis. Em seguida, bem devagar o despiram e se despiram também. Ele afagou e sugou os quatro seios, tocou com fome incontrolável as duas vulvas ávidas para cativá-lo, gemendo de prazer absoluto. E assim, desfrutaram por algumas horas uma existência só de gozo e delícia. Até que Miguel, saciado e exausto, rendeu-se a um sono repentino, incontrolável e pesado.

Na manhã seguinte, quando o jardineiro acordou, mergulhou de súbito num inferno de pânico. Ele nada via. Era tudo cinza. Ele estava cego. Desesperado, começou a berrar e chorar:

– Eu não tô enxergando! Eu não tô enxergando! Meu Deus do céu, que é isso? Me ajuda! Me ajuda! Carina! Marina!

Ouviu passos. E uma voz que poderia ser de Carina ou Marina:

– Sim, você está cego, Miguel. Nós o anestesiamos e depois o cegamos com um produto químico.

– Por que fez isso comigo? Por quê?

Ouviu a mesma voz que no entanto vinha do lado oposto:

– Porque existimos em par, somos iguais, como se uma única pessoa vivendo em dois corpos. E não suportamos que nos comparem, que encontrem diferenças entre nós. Isto pode nos despertar sentimentos ruins como a inveja, por exemplo, e nos amamos demais para permitir ameaças. Antes de você aparecer, nós nos bastávamos, não precisávamos de ninguém, vivíamos uma pela outra, mas aí você chegou e mudou tudo. Nós o desejamos e sem perceber, iniciamos uma competição velada, até conhecermos o horror do ciúme; ficamos confusas, não sabíamos se eram ciúmes uma da outra, ou de você. E não podíamos correr o risco de manchar nossa união. Cego, jamais notará diferença entre nós.

– Cês são doidas! Eu quero sumir daqui! Eu vou embora!

– Você não pode, não tem ninguém no mundo, está numa cidade desconhecida e muito perigosa, não tem dinheiro pra se manter. E cego! A partir de agora, depende de nós pra tudo. E vamos cuidar de você, amar, ter filhos com você.

Sentindo-se irremediavelmente vencido, Miguel chorou alto e disse gritando:

– E minhas flores? Eu amo minhas flores! Nunca mais vou poder olhar pruma rosinha brotando!

– Suas flores agora somos nós e exigimos o mesmo amor que doa a elas, porque só suportamos ser amadas assim, sem distinções e preferências. Aliás, como você mesmo disse, duas rosas da mesma roseira não têm diferenças.

E se deitaram nuas sobre ele, oferecendo suas tenras carnes e cheirosas seivas duplicadas. Como de costume, não dividiram, mas multiplicaram ímpetos de fúria asserenados e manhas de amor embrutecidas daquele homem imerso em cores, luzes e formas que só o desejo permite enxergar.

Marco Aurelio Vieira
Enviado por Marco Aurelio Vieira em 02/10/2014
Reeditado em 20/10/2014
Código do texto: T4984425
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.