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CANTORIA
 

 
   
Quando o sol desceu no horizonte, o céu ficou avermelhado por um tempo. Depois, como se somente estivesse esperando a deixa, a lua cheia fez sua aparição. As estrelas também combinaram. Ficou um manto estrelado cobrindo a Terra. No campo, os vagalumes ponteavam, riscando fios de prata.
Em cada lar, as luzes foram se acendendo. Ninguém nas ruas. A não ser um canto sonoro, um mugido distante, ou a cantiga do vento, o silêncio imperava.
Então, uma voz argentina iniciou a canção. Primeiro era um murmúrio, que foi crescendo, crescendo, até tomar conta e se sobressair a qualquer outro som. Ninguém sabia de onde vinha, nem quem cantava.
As crianças foram se encolhendo, olhando para os adultos com olhos arregalados, carinhas de choro. Os pais olhavam para os filhos, querendo acalmá-los, mas eles também sentiam um arrepio pelo corpo, uma sonolência, um amolecimento. E a cantoria penetrava por portas, janela, frestas até encher a casa de tal modo que se, eventualmente, alguém tivesse coragem de pronunciar uma palavra, era engolida pela canção.
Havia um tum-tum que martelava e tornava dolorido até o respirar.
E a voz crescia sempre e sempre.
Homens e mulheres tinham a respiração ofegante, o cérebro entorpecido, querendo proteger uns aos outros, socorrer o choro das crianças, que não ouviam, mas viam. Aos poucos, foram tombando, em câmara lenta, amolecidos, até não restar mais ninguém em pé.
Quando o último adormeceu, a música cessou de imediato.
Então, seres monstruosos, de cabeça e orelhas desproporcionais, tomaram conta das praças, jardins, pátios e campos dançando em silêncio, até o amanhecer.
Os habitantes acordaram e retomaram a rotina, sem se lembrarem de nada da noite anterior.




 
MADAGLOR DE OLIVEIRA
Enviado por MADAGLOR DE OLIVEIRA em 29/12/2014
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