A Tábua dos Espíritos (Ouija)


A Tábua dos Espíritos ou Ouija consiste numa superfície com letras e números em que coloca-se um indicador móvel. No Brasil utiliza-se, também, o chamado Jogo do Copo, conforme o nome indica, utiliza-se um copo para que sejam obtidas respostas dos supostos espíritos.
Na realidade nunca fui uma pessoa espiritualista, mística ou mesmo religiosa. Considero-me um ateu convicto. Deveria dizer, materialista, mas muitas coisas aconteceram durante minha vida, que ficou difícil tal afirmação.
Tentarei relatar uma delas, utilizando apenas minha memória de fatos acontecidos em meados dos anos oitenta. Eu trabalhava como professor numa pequena escola pública em Santo André, com o primeiro grau, atualmente, ensino fundamental. O ano letivo transcorria normalmente, até que passei a observar que um grupo de cinco ou seis meninas, do oitavo ano que, ao invés de cantar e dançar “Menudos”, passaram a se afastar para os cantos da sala durante os intervalos e ficavam após o horário. Curioso aproximei-me e percebi que tentavam esconder algo. Perguntei sobre o que se tratava, e a resposta foi que era apenas uma brincadeira chamada Jogo do Copo, nada demais.
- Posso partcipar? Sou muito curioso.
- O que é isso professor? É uma brincadeira, bobagem.
- Eu insisto.
- Está bem, disse Elisa, apresentando-me o tabuleiro. Faça uma pergunta e talvez o espírito responda.
- Espírito? É brincadeira, não é?
- Então faça.
- Está bem. Quem é você?
Nada aconteceu. As meninas disseram que ele não responderia, pois eu não acreditava.
- Mais uma razão para ele responder, disse eu.
- Não adianta, ele se nega a falar com você.
- Como sabem, se o copo não se mexeu?
- Ele também se comunica através de nossas mentes, às vezes.
- Talvez seja um covarde. Ou apenas imaginação de vocês.
Os dias foram se passando e não falei mais sobre o assunto. Entretanto, notei que o comportamento  do grupo de meninas mudara. Quase não participavam das aulas. Pouco falavam até com outros colegas.
Determinado dia, após as aulas fui procurá-las. Não me receberam muito bem e já iam se retirando.
- Esperem. Quero falar com vocês e com tal espírito.
- Tá bom, mas não sei se ele vai se comunicar com você.
- Está bem, antes me digam, o que sabem sobre ele.
Uma delas, Sabrina, disse que o espírito chamava-se Roberto e que morrera no ano anterior, sendo enterrado no Rio de Janeiro, cemitério São João Batista, em Botafogo. Tinha sido médico e fora assassinado por um paciente com problemas mentais.
Logo pensei: está parecendo “clichê” demais. Médico, cemitério de celebridades, paciente com problemas mentais...
- Não adianta, ele só fala com a gente.
- Bem, diga que eu o considero um covarde. Peça as informações sobre onde ele está enterrado que eu vou pedir para uns amigos que moram no Rio confirmarem.
O copo começou a se mover. O problema é que uma das meninas mantinha um dos dedos sobre ele, levantando dúvidas e não era ela mesma que o movimentava.
- O Roberto disse que você é um professorzinho idiota, incrédulo e metido.
- Obrigado, respondi.
- Ele disse que na verdade não foi enterrado no São João Batista. Falou isto somente para nos impressionar. Está enterrado no cemitério de Camilópolis, aqui mesmo em Santo André. O resto é verdade.
- Então, eu mesmo vou verificar, se ele disser seu sobrenome.
- É Andrade dos Santos, pode ir verificar, teria respondido o espírito do tal Roberto.
Como o final do ano letivo se aproximava e com ele uma série de obrigações profissionais, acabei adiando a pesquisa. O ano terminou e as meninas terminaram seu curso, saindo da escola.
Durante as férias fui até o tal cemitério e perguntei ao atentende administrativo sobre a localização do possível túmulo.
- Com esse nome há duas pessoas: um comerciante que foi enterrado há dois anos e um assassino morto pela polícia, ano passado. Houve grande repercussão. Não ouviu falar?
Agora, o “clichê” ficou pior ainda. Pensei.
No ano seguinte, ainda com o acontecido atormentando-me, voltei ao trabalho. Comoção geral. Uma das meninas, Elisa, cometera suicídio, outra estava internada para desintoxicação devido às drogas e não obtive informações sobre as demais.
Talvez apenas coincidência. Nunca saberei se esta sucessão de “clichês” foi ou não verdadeira. Vai saber.
Gerson Carvalho
Enviado por Gerson Carvalho em 04/10/2015
Reeditado em 19/06/2021
Código do texto: T5404225
Classificação de conteúdo: seguro