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A PORTA

     
            A história que vou contar aconteceu já a algum tempo, mas de vez em quando acordo pensando nela. A autora poderia ser Lygia Fagundes Telles ou Edgar Allan Poe.
Sei que alguns dirão que é “coisa de gente louca” ou que é “coisa de gente drogada”. Mas, disseram o mesmo já de Aldous Huxley quando escreveu “Admirável Mundo Novo” e de George Owell com seu “1984”. Huxley chegou a explicar depois, em uma entrevista ,que “Admirável Mundo Novo” foi fruto de muitas pesquisas junto a cientistas da época. Ele lhes perguntou o que estavam pesquisando e escreveu o livro criando aquele mundo projetado no futuro com os avanços científicos que eles tentavam obter.
Mas não é esse meu caso. Não pesquisei nada. Não li nada sobre o assunto. Apenas aconteceu comigo o que lhes conto. Papai havia morrido. Eu e ele éramos muito ligados e sofri durante meses com a separação. Sentia, de quando em quando, uma presença nos ambientes da casa. Às vezes sentia um perfume de orquídea num cômodo; às vezes, sentia o seu perfume no ar. Ou entrava num dos cômodos da casa e sentia que havia mais alguém. Minha pele se arrepiava. Eu procurava mas não havia ninguém. Eu, porém, continuava sentindo que havia alguém e dizia para mim mesma: não tem ninguém, não está vendo? Que besteira! Mas, continuava sentindo os cheiros e as “presenças”.
O apartamento de meus pais era muito amplo e confortável. Ficava no andar  superior, onde ficavam todos os quartos. O deles era duplo. Havia uma porta interna separando os quartos de papai e de mamãe mas eles nunca a fechavam. Em cada um deles tinha uma cama de casal. Papai tinha uma insônia incontrolável e, por causa dela, mamãe não podia mais nem se virar na cama que ele já acordava. Daí, como o quarto era duplo, decidiram separar as camas e resolveram o problema. Quando papai morreu, mamãe trancou a porta de comunicação. Mas isso não foi o suficiente. Sentia-se incomodada com a porta trancada e o quarto vazio.
E veio dormir comigo. Passou uns seis meses assim. Dizia ter medo de dormir sozinha no seu. Eu concordei; mas ria dela e achava uma grande bobagem. A casa era muito segura e não havia possibilidade de nada de grave acontecer. Bastaria que ela gritasse e eu ouviria com certeza. Depois de seis meses, voltou para sua cama em seu quarto. Mas, toda noite, vinha até o meu para desejar boa noite. Entrava em silêncio, acariciava meu cabelo, dava-me um beijo e ia deitar. Eu então, toda noite me deitava,  deixava o abajur aceso e esperava por ela e pelo beijo. Enquanto ela não vinha, aproveitava para programar meu dia seguinte e para fazer minhas orações.
 As portas de todos os quartos da casa possuíam um sistemas de molas muito interessante que as forçavam a ficar fechadas. Para abri-las era necessário empurrar. Assim que tirávamos a mão, elas se fechavam sozinhas. A do meu quarto estava precisando engraxar porque estava dura de abrir. Eu precisava fazer um pouco de força para abri-la.
Naquela noite, deitei-me e esperei. Fechei os olhos, porque a luz do abajur me incomodava um pouco, e pus-me a programar meu dia seguinte.
Então, como sempre, a porta abriu e fechou. Fiquei esperando o beijo, mas nada aconteceu. Senti que mamãe sentava ao lado do meu pé, na minha cama; mas ela não disse nada, nem veio me beijar. Me apavorei! Fingi que estava dormindo. Pensei: será que é um ladrão? Fiquei um tempo assim apavorada, sem saber o que fazer, imóvel e em silêncio, criando coragem para abrir um pouco, disfarçadamente, um dos olhos, para tentar ver algo.
Mais por medo de ser atacada do que por coragem, abri levemente um dos olhos, e fechei rapidamente em seguida.. Mas , não vi ninguém. Não conseguia entender! O colchão estava amassado perto de meus pés. Podia sentir isso.
Criei coragem e murmurei: Mamãe?! Nada de resposta! Então pulei imediatamente na cama e sentei ainda tentando me defender de algum ataque. E o que vi foi impressionante: o colchão permanecia levemente, afundado mas não havia ninguém no quarto. Fiquei olhando para aquela depressão sem entender enquanto tentava me acalmar e raciocinar.
Então, escutei a sua voz. Disse-me que estava de partida, que eu já estava forte o suficiente e que não precisava mais dele; que ele iria para junto de um irmão meu que estava precisando muito dele. Disse-me que aquilo era um adeus, que viera se despedir, que eu não mais sentiria sua presença. O colchão repentinamente voltou ao normal, a porta de molas se abriu e se fechou na minha frente.
Em seguida a porta de molas se abriu novamente e entrou minha mãe. Eu, permanecia sentada na cama, completamente paralisada!
Minha mãe sorridente comentou : esperando por mim? Vá dormir que já é tarde! Boa noite! Beijou-me e saiu. Eu não disse uma palavra sequer! Deitei-me e tive uma noite infernal.
Rita Velosa
Enviado por Rita Velosa em 23/08/2007
Reeditado em 01/09/2008
Código do texto: T619714
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Sobre a autora
Rita Velosa
Américo Brasiliense - São Paulo - Brasil
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Rita Velosa