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Vingança Sertaneja

A velha tinha as mãos calejadas. Era baixinha e corcunda. Seu cabelo se embolava em vários fios brancos dentro de um lenço. As marcas do tempo e da experiência da vida estavam visíveis no rosto e no olhar. As mãos eram ásperas como a de um lavrador e os pés tinham a carne grossa e rígida de tanto caminhar no sertão em busca de água. Achava que teria uma vida menos sofrida na cidade.
Pegara um ônibus velho e cinza no meio da estrada de barro seco. Pensava no quanto sua vida melhoraria na cidade. Procuraria um emprego e um local para morar e assim que estivesse com tudo arrumado buscaria os oito filhos na roça. As pessoas da cidade eram educadas, tinham conhecimento. Ela queria educar seus filhos, dar a eles um futuro digno de gente.
E parecia que o destino conspirara ao seu favor. Conhecera uma mulher no ônibus que morava em uma pequena vila perto da sua roça. A mulher iria visitar a sua tia e prometeu a velha que pediria para a tia arrumar-lhe um emprego. A velha sentiu-se imensamente agradecida. E sorriu. Após um dia viajando não agüentava mais. Parecia que levara uma surra, estava velha demais. Saíra de madrugada e só chegara na capital na noite seguinte.
Assustou-se e se sentiu ainda mais acanhada com a multidão na rodoviária. Alguns dormiam, outros andavam apressadamente. Mas notara que se vestiam bem, ou pelo menos mais do que o povo do sertão. Estava feliz, pois sabia que sua vida mudaria.
Tomaram sopa quente antes de dormir e a velha estava encantada com a simpatia da tia da moça. No dia seguinte teve a certeza definitiva que sua vida mudaria ao conseguir um emprego de faxineira em uma casa de classe média alta. Moraria no seu emprego, e pensou que isto seria ótimo durante dois meses, o tempo suficiente para arrumar um local para morar.
No começo a velha estava fascinada com a cidade. Mas não entedia seu povo. Muitas vezes a ignoravam e nem olhavam para ela. O tempo passava e ao invés de melhorarem as coisas pioraram.
Achavam que a velha era burro de carga e davam-lhe trabalhos até de madrugada. Ganhava dinheiro suficiente para morrer de fome. Bebia água a vontade, mas não era água de lençol limpa como no sertão. Era uma água com gosto diferente, quando não era preta. Era xingada e ameaçada muitas vezes. As magras pernas tremiam muito e por muitas vezes sentia-se fraca. Só tinha direito a uma refeição pequena por dia. Mas lembrar de sua família fazia ela tirar forças do além e engolir tudo que ouvia.
A todo o momento pensava em seu cômodo de barro que dividia com as crianças. Estava pasma. Nunca vira gente tão complicada e diferente em sua vida. No sertão a vida era dura, mas as pessoas ao menos pareciam ter mais união. Todos eram iguais. Estavam na mesma situação e queriam se ajudar. Na cidade era diferente. As pessoas quase não passavam tempo junto, pouco se falavam e não eram todos iguais. Sentia que era diferente e seus patrões lembravam sua desimportância o tempo todo.
Não tinha mais um mínimo de auto estima e suas condições internas eram piores do que as externas. Chorava lágrimas secas de dor e saudade.
Não lia, não escrevia, sabia muito pouco sobre os aspectos intelectuais da vida. Mas tinha um incrível conhecimento sobre os aspectos sensoriais mais profundos da existência humana. Conhecia o peso de andar quilômetros carregando uma bacia com água na cabeça, quase sem respirar devido ao calor. E este era um conhecimento que raríssimos homens da cidade tinham.
A velha tratava daquele pedaço de carne nobre enquanto os patrões saíam. Arrancava as vísceras em gestos levados pela vingança e desespero. Tirava os ossos e os despedaçava com um pilão, imprimindo naquele osso as dores que ela mesma sentia quando carregava peso. Recolhia o líquido vermelho em um copo velho. Arrancou com vigor os poucos pêlos que havia na carne em uma analogia ao que a vida havia feito com seus cabelos.
Sentira alivio a cada vez que ouvia a faca entrar naquela carne ensangüentada. Levantou o copo de sangue até os olhos e pegou a faca. Em um fino corte no braço viu o mesmo líquido sair da sua carne. Olhou o copo e seu braço com o mesmo fluido. Então, num só gole bebeu todo aquele sangue da carne nobre e reparou então que tinha o mesmo gosto do seu.
Arrumou as poucas coisas que tinha e voltou para o seu sertão. Precisava rever os filhos.
O casal chegou a noite e o cheiro de carne podre começava a exalar na casa. Chegaram na cozinha e viram a imagem do corpo do seu anjinho de cinco anos destroçado em cima da mesa.


Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 26/08/2007
Código do texto: T624344

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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