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O Velho

1.

Eram 12:05 quando cheguei para buscar minha amiga Leonor, para irmos almoçar. Era um ritual: descer do prédio onde eu trabalhava, subir no prédio ao lado, pegar a Leonor, que, como sempre, ainda estaria terminando um serviço de última hora. A essa hora o prédio costumava estar quase vazio. Por isso, todos os dias eu subia para buscá-la: Leonor tinha medo de andar pelos corredores desertos, assim como tinha uma lista enorme de outros medos.

– Leo! "vão bora" antes que isto vire um cemitério!

Fiz a minha habitual entrada espalhafatosa, escancarando a porta e gritando ao mesmo tempo. Leonor arregalou os olhos e não mexeu um só músculo. Era assim que reagia – ou, melhor dizendo, não reagia – quando se assustava, um tipo de terror paralisante.

– Você ainda me mata do coração... Disse, num fio de voz.

– Ou, então, curo você desse medo crônico. E essa coisa esquisita de ficar parada que nem uma pedra, em vez de gritar ou de xingar, sei lá, reagir como todo mundo faz... Você deveria consultar um psiquiatra. Isso é perigoso, sabia? É anti-sobrevivência ou algo assim. Vamos almoçar?

– Mais duas linhas pra datilografar, e podemos ir. Essa droga de sempre me darem um serviço na última...

Não terminou a frase. A estante começou a despejar livros para todos os lados. Vi quando Leonor caiu da cadeira, sem sequer um gemido, enquanto eu mesma me esparramava no chão. Papéis, livros, vasos de flor, móveis, tudo adquiriu vida e movimento, em meio a um som que era grito, gemido, rouco e profundo.

2.

Terremoto! E estávamos no 20º andar daquilo que sempre víramos só como um prédio, nada mais, mas que agora, principalmente para nós, parecia um maravilhoso milagre de engenharia, capaz de resistir à loucura da terra em espasmos. Estávamos vivas, afinal. Contundidas, alquebradas, escoriadas, mas vivas.

Levei nem sei quanto tempo para reconhecer o que tinha acontecido e mais uma eternidade para conseguir me levantar e agir. Procurei Leonor. Estava imóvel, provavelmente na mesma posição em que caíra, os olhos mais arregalados que nunca. Chamei-a, sem resultado. Sacudi-a, primeiro suavemente, depois com força. Não reagiu. Consegui levantá-la. Puxei-a pela mão e ela foi me seguindo a passos duros, feito um robô. Saímos para o corredor.

Tínhamos de tentar sair dali, descer pelas escadas até o mundo que, pela lógica, ainda estava lá. Se estávamos vivas, suspensas por aço e concreto a sessenta metros do solo, a Terra ainda estava lá, o velho planeta, suspenso no espaço por uma única lei, a quase cento e cinqüenta milhões de quilômetros do Sol. E se o prédio continuava sendo prédio, ainda que torto e quebrado, as saídas tinham de continuar sendo saídas. Pelo menos, era o que eu esperava e ansiava tanto quanto a própria vida, fragilmente preservada. Não sabia se o prédio agüentaria de pé até conseguirmos chegar lá em baixo, ou se iria desmoronar a qualquer momento por causa das acomodações que, certamente, ainda estavam se processando em suas estruturas. Aqui e ali, as paredes estalavam, rachavam; rebocos caíam.

3.

Iniciamos a descida. Fomos encontrando pessoas vivas, ainda desnorteadas, que se juntaram a nós, e três que não tiveram a mesma sorte e foram mortas pela queda de objetos pesados. Soubemos de quatro pessoas que caíram por estarem perto demais das enormes janelas de vidro. E houve o caso de um homem que se jogou quando o caos começou, porque sofria de claustrofobia.

Estávamos muito feridos, principalmente na alma, e tomados pelo medo animal do desafio da sobrevivência quando o ambiente muda e cada fator é desconhecido. Apesar disso, somamos coragem e carregamos os que não podiam andar.

As salas comerciais lindas, arrumadas, agradáveis, transformaram-se num cenário absurdo e caótico, em concordância com o trauma por que passaram. A luz que se via entrando pelas janelas vinha filtrada através de uma massa marrom acinzentada que nada tinha da beleza exótica dos elegantes vidros ray-ban, agora cintilando em pedaços minúsculos lá em baixo.

Descíamos. A cada andar superado, somávamos certeza à nossa esperança e alegria à nossa coragem. Já falávamos, numa tímida tentativa de humor, do susto, dos pensamentos que nos relampejaram pela mente durante os poucos segundos do abalo: uns filosóficos, outros religiosos. Alguns não pensaram coisa nenhuma, apenas sentiram um pavor como nunca, e os muito materialistas xingaram alguns filhos de algumas mães.

Leonor continuava apática, deixando-se levar por mim. Parecia não se importar com nada, parecia não ter instintos.

4.

O horror voltou quando chegamos ao 11º andar. Tudo o que havíamos conseguido juntar de esperança, coragem e risos explodiu em milhões de fragmentos e se reagrupou numa massa informe de pânico e desespero e choro. Uma imensa parte do andar tinha cedido, deixando um buraco enorme entre nós e a escada para continuarmos a descida. Uma ironia ridícula, essa: uma falha no material. O prédio como um todo tinha agüentado, um pedaço desse andar não... O ponto fraco existente em todo organismo.

Olhando para baixo dava pra ver o amontoado de material que tinha se despencado... tão longe, tão lá em baixo. Percebemos que não fora somente aquele andar que caíra. A força do impacto, o peso do material caindo, abalou outros pisos e tetos e, ao todo, quatro andares haviam desmoronado. Assustadora era a boca descomunal aberta no meio do prédio. Escura e sinistra. Talvez tivesse engolido alguns corpos junto com o entulho.

Deitamos no chão os que carregávamos e a nós mesmos, pois o peso do desânimo encurvava a coluna e doía. O responsável talvez fosse o grande contraste estabelecido entre os sentimentos positivos que já nutríamos e o choque do obstáculo inesperado. Ninguém conseguia pensar, isto era patente na fisionomia de todos. Nem sequer senti surpresa quando Leonor se levantou e foi em direção à porta aberta de uma sala; tampouco entendi o que ela quis dizer quando sussurrou: "– O velho...".

Quando saiu daquela sala, Leonor estava excitada, atropelando palavras, agitando as mãos.

– As cortinas, gente!.. Me ajudem!... Vamos, pessoal, se mexam! Vamos rasgar as cortinas... Fazer uma corda... Descer pelo buraco! Vamos, me ajudem! Rápido, todos!

Fomos sacudidos e arrancados daquele marasmo, daquela sensação até de estranheza de estarmos vivos. Era a solução, simples e quase evidente, mas que não pôde ser vista através da névoa que se formara em nossa mente.

– Leonor, como... o que deu em você?!

Ela não me ouviu, já estava correndo, agindo, rasgando uma cortina.

5.

Saímos todos do prédio. Tontos, cansados mas exultantes. Conseguimos! Desta vez foi Leonor que pegou minha mão e foi me puxando para o mais longe possível dali. Não estaríamos em total segurança antes de nos afastarmos daquela área cheia de prédios, alguns semidestruídos, outros completamente.

Andamos por uma meia hora, ora nos desviando, ora escalando montes e montes de entulhos, até que chegamos ao grande parque, uma área que o ser humano, num rasgo de generosidade, ainda concedia gratuitamente à natureza.

Sentamos e não dissemos nada por uns bons quinze minutos. Leonor olhando lentamente para todos os lados onde a vista alcançava, e eu com o único pensamento que me ocupou a mente desde que saímos de lá: o que aconteceu com ela? Como? Por quê? Leonor mudou de rato para gato! Olhei pra ela, que me olhou de volta, com uma expressão enigmática. Algo de muito infinito e eterno em seus olhos me fez bem, mas me causou um arrepio.

– O que aconteceu com você? Como é que você conseguiu dar aquela volta de 180º?

– Não sei... quer dizer, não sei se sei explicar. De repente, eu vi aquela figura ali, parada, me olhando, e...

– Ah, é! O tal velho, não é? Você disse "o velho..." e se levantou.

– Eu estava num clima de pesadelo absurdo, sentindo um pavor tão grande que eu nem conseguia sentir nada... dá pra entender? De repente eu o vi lá. Era um velho, de barba e cabelos muito, muito brancos; tão velho que eu não saberia calcular a idade dele. E estava vestido com uma túnica de um branco meio dourado. E parecia irradiar uma coisa tão sábia, tão eterna, tão poderosa... Eu senti uma força que vinha dele e entrava em minha consciência, e passava a fazer parte de mim. Aí ele me disse uma coisa, foi a única coisa que ele me disse, e, de repente, eu fiquei totalmente serena. Ele não falou aquela idéia da corda nem deu nenhuma pista disto. A idéia me veio, acho eu, com a própria serenidade que passei a sentir.

– Que estranho... Desculpe lhe dizer isso, mas, será que você não teria meio que... hã... tido uma alucinação? Quer dizer... veja só, eu não vi nenhum velho lá em cima e também não tinha nenhum entre as pessoas que saíram de lá junto com a gente...

– Eu fiquei pensando nisso desde que saímos de lá, tentando dar uma explicação razoável pra mim mesma. Pode ter sido uma alucinação, sim, é claro... Do jeito que eu estava. Mas, talvez...E essa hipótese é a que me parece mais verdadeira. É o seguinte: talvez eu tenha imaginado e “visto” fora de mim uma imagem interior, entende? Porque tudo aquilo que "vi" nele está agora aqui, bem aqui dentro de mim. Olhe, eu não se sei o que me aconteceu... só sei que aconteceu e que alguma coisa, como você disse, girou 180º dentro de mim. E agora, minha amiga, me sinto forte, tranqüila e pronta para os desafios, pequenos ou grandes, que a vida está sempre nos propondo. É isso...

– É... Nem sei o que dizer. Tem coisas que são inexplicáveis mesmo. Quem sabe, elas sejam a medida da nossa ignorância. Mas, afinal de contas, o que foi mesmo que o tal velho disse pra você?

E, pela primeira vez desde que tudo começou, ela sorriu.

– Ele disse... "A última coisa que a vida faz é desistir".
Rosana Macedo Pontes
Enviado por Rosana Macedo Pontes em 07/09/2007
Reeditado em 22/09/2010
Código do texto: T642084

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Sobre a autora
Rosana Macedo Pontes
Sete Lagoas - Minas Gerais - Brasil, 62 anos
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