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VIGARIO GERAL

   O sofá de três lugares é que esperava alguma coisa da televisão desligada, ao meio da estante de mogno – de frente à ela – o sofá de dois lugares olhava a porta fechada e as cortinas verde-candura na janela nada discreta mas cerrada.
   E o ar era denso e abafado porque a casa estava só, e a poeira pedia licença para entrar pelas frestas para até conseguir chegar sobre o impecável brilho dos moveis; na parede azul quase lilás os quadros, em molduras envernizadas, que não era qualquer que entendia o que queria dizer: eram paisagens que sorriam.
   Um livro fora esquecido aberto em cima da mesa, na cozinha, apertada entre o fogão e a geladeira.O fogão creme-pálido não combinava com a geladeira quase branca com um jarro de porcelana cheio de flores de plástico, parecendo ser da cor violeta, em cima.
   E o livro de capa dura refletia-se no tampo de vidro da mesa que alguém esquecera de forrar com uma toalha.As letras grandes da capa do livro apareciam, e pareciam estar dentro da mesa.A mesa bebia, assim como as letras grandes do livro, as coisas do teto.A mesa bebia, com o seu reflexo, o lustre; não era bem um lustre era um globo que não era bem branco nem estando apagado.
   E ruídos de pássaros lá no céu, que não se dava para adivinhar, perturbou as coisas imóveis e vivas aqui dentro.A geladeira dera um grande berro ao ligar de novo; o fogão de tampa aberta, suportando as panelas que se mexeram as tampas, resignou-se ao silêncio dos fogões; e fora a torneira que pingava na pia – que respondera – parecendo sentir dor onde ficara marca negra de umidade.
   O chão de taco encerado se pudesse falar diria que vai mal a serenidade quando a poeira estronda por onde tem buraco.e o buraco da fechadura é que caberia um olho a espiar toda esta sonsa e arranjada solidão.
   No quarto de casal, que se conhecia pela cama larga e quadrada e tendo quase ao lado o imenso guarda-roupa, era ai que habitava o aroma suave dos amaciantes; e tudo em mogno e por dentro que engolia as roupas e os saches de cânfora.Uma borboleta entrara, não se sabia por onde, e loucamente buscava um refugio certo ali no quarto.O toucador, na quina do cômodo, uma colônia destapada oferecia seu aroma de flores para desvairada borboleta.E o quarto tinha o doce dos aromas femininos, e ainda mais do descuido desta mulher.e no rotulo do vidro a camponesa sorria com um buquê de alfazema cercada de tantas pelo campo aos seus pés.
   A cortina descerrada, sobre a janela cerrada , oferecia quase um refugio a borboleta amarela e desvairada.
   No outro quarto, uma cama suportava a outra, e o armário nem chegava aos pés de guarda-roupa, e com as portas empenadas atrevia-se a dar um ruído sozinho no quase silêncio da solidão se não fosse os ruídos externos que sempre se metiam.E meias encardidas se escondiam por debaixo da cama enveredando um cheiro atrevido e criança que jamais permitiria a borboleta ali estar.
   O que perturbaria aquilo ali? A folha seca que entrara pelo pequeno basculante que estava aberto e no chão de taco abandonado ficara? Um vento liso com poeira, que por aquele basculante entrara, fora arrastando porém num arrastar quase sem vontade?
   O sofá de três lugares gemeu, de repente, como se fosse de mola e alguém sentara nele.Ele resmungava a ausência.E tudo era ausência na intranqüilidade tranqüila da casa que se escurecia.E ocorrera da televisão estalar dentro da estante e um livro mal colocado na prateleira de cima parecia esperar a hora exata de vir a queda.O chão de taco encerado era seu limite.
   Assim de dentro tudo era ameaçador e constante...
   A televisão desligada tinha em comum a mesma compreensão resmungona.E tudo perturbava o mundo entregue à ausência.
  E no banheiro ouvia-se o ruído da água acumulada nos canos, e os canos torciam-se acumulados do cansaço do longo espaço de tempo sem uso.
   Há muito tempo não se via a casa assim, nesta saudade; embora acontecera de há horas os moveis – imóveis em seus lugares – parecerem ter pedido o que fatalmente acabara acontecendo.
   A porta balançou ao impacto de um supersônico que cruzara o céu que não se dava para adivinhar, e todos objetos pareceram intranqüilos e exaustos por um instante que era tão igual ao mesmo instante.As sombras da rua, talvez, invadiram as paredes que acontecera de achar-se fantasmas...e logo depois via-se nada disto.
   Tudo se acomodara na paz da poeira que tomara a liberdade, depois da licença concedida, sobre os moveis de brilho impecável.
   Tinha-se um quintal? Só podia, se ouvira um galo que cantara forte perturbando a paz guardada a chave.
   O ar descia denso ao mesmo tempo que o abafado subia e permanecia...E então um tique-taque de um reloginho na prateleira da estante sem mais nem menos como que só para quebrar a gelada e dura melancolia densa da atmosfera abafada.Um reloginho quadrado de fundo branco-areia e com seus números em numerais romanos.E o tique-taque começara a se mover nervoso, nervoso, reclamando muito à ausência iluminada que os levavam à poeira.O livro achara, ao tique-taque nervoso do reloginho, a hora exata de vir em queda.Então acontecera o estrondo que machucara, era quase como o supersônico de novo...
   A casa estava só e desprotegida porque as coisas quase não podiam se mover...
   Caíra sobre então um certo instante constante que nada se fizera manifestar.Houve um silêncio miserável corrompido de dentro de dentro da casa; como se a casa, em si, com o que vivia dentro pudesse adivinhar que já à qualquer momento-presente tudo voltaria ao caos cotidiano...
   E já se ouve o barulho da chave no buraco da fechadura, é o mesmo do tropel do alvoroço...ao chegar enfim.
   

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AUTOR:RODNEY ARAGÃO
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 15/09/2007
Código do texto: T653595

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Rodney Dos Santos Aragão