Utopia de Um Homem Só

Habitar o Insólito é Válido --

Desde que não se torne Hábito

Compõe o escritor sulcando a folha em branco com as sementes-letras. Palavras marcam as páginas. Não é tão simples quanto parece.

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Há uma Praça do Esquecimento onde repousam os Longevos (ninguém lá, a não ser um jovem de muito estudo sobre as Eras Passadas, saberá dizer o que significou o termo "idoso"; é coisa de tempos remotos...). Grosso modo, trata-se de um Asilo Ao Ar Livre. Eles vestem branco e ora fitam o Firmamento, ora contemplam o chão marcado pelas eras. A maior parte deles tem os olhos claros: verdes, azuis, alguns amarelos (ou algo próximo).

Chegar a essa Época, ter contacto com algumas dessas pessoas, é, com efeito, o trabalho de uma vida. O de um homem que está só. O do Homem Só – um Símbolo.

O Inverno das Eras já passou. E deixou marcas (mas sobre isso falaremos depois).

É necessário produzir Silêncio – item vital à manutenção da Vida na Terra Setentrional.

Parece que conforme o tempo passa, portais se abrem para outras dimensões e por lá se chega a outros mundos e tem-se contacto com outras raças. Do ser humano restam apenas lendas. Quem foi, o que fazia, quando deixou a Terra.

Sou um Homem Só, Borges. Não tenho, não por ora, mais ideias para escrever um conto de dez páginas, todas devidamente escritas. Atenho-me apenas ao que pode ser lido mais rápido. Borges, já passam séculos.

Essa é a minha Utopia. A de um Homem Que Está Só. Como ele mesmo. Como os Longevos no Asilo Ao Ar Livre.