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O mistério da palavra

   Eu tento me lembrar da palavra, e não consigo. Sinto-me como um afásico que não consegue dar corpo aos pensamentos, a mesma agonia. Está a palavra no limiar de minha consciência, na ponta de minha língua, mas não, não consigo. Há um dicionário na minha estante. A palavra com certeza está consigo. Ou não. Sim, ou não. Ingenuidade minha crer que um dicionário contenha todas as palavras com as quais comerciamos. Não tenho também razão de crer que ela seja assim tão singular a ponto de fugir à alçada de um livro relativamente extenso. Sim, acredito que está lá. Mas devo dispensá-lo, isto é, o dicionário. Uma busca linear? Palavra por palavra? Começaria pela letra A? Um homem como eu, temporal, requer uma busca binária. Será isto o segredo do insucesso? A vocação de cada um está bem aqui, atrás de nossos olhos, nós sabemos que está, mas é tão exaustivo e tedioso vasculhar o que somos. Como cheguei à palavra?, por exemplo. Eu pensava no fascismo. Faxismo, em italiano. A palavra foi feita para ser dita em italiano, chamada em italiano, gritada em italiano. Como ''fiasco'' também. F de novo. Será uma pista? F, F, F. ''Kaputt'' em alemão. ''Vie'' em francês. Histoire de ma vie. Ma vie. O fascista quer a guerra o tempo inteiro, isto Benito Mussolini escreveu. O pacifismo não lhe é natural. Ele olha para a natureza, um animal a devorar o outro, e diz, Isto é assim, somos assim. Nisto eu pensava, sim, era nisto, antes da palavra. Se quereis a paz, preparai-vos para perecer na guerra. Eis o epitáfio do soldado pacífico. Se eu penso assim? Não sei, há muito para se pensar. Como cheguei ao fascismo? Foi hoje ou ontem? Quando lhe compreendi o significado? Não é este o método de Gurdjieff? Quando aprendi a ler? Quem me ensinou? Onde aprendi a ler? Por que eu estava lá? Naquele lugar. Por que não em outro? Foi arbitrário? Foi imperativo? Questões econômicas? Uma tragédia familiar? Será que assim chegarei a palavra? Será que assim me será permitido dar o passo que falta? O sobrenome de meu pai é von Chartman, o de minha mãe, Kolanko. Eles se conheceram por acaso. Meu pai pensava em substituí-la, por isso lhe queria uma filha. Eu não era querido, mas nasci. Tudo é por acaso. Foi uma fatalidade ela ter morrido num acidente de carro quando me levava ao mercado? Teria sido também uma fatalidade se tivéssemos chegado os dois lá com saúde. Sim, teria. Teria sido um acidente termos sobrevivido numa estrada por onde andava um homem epiléptico atrás de um volante. Três segundos mais tarde e eu conheceria a palavra. Haveria outra a me atormentar com os seus mistérios, sim, eu sei, uma que, sem me dar por isto, talvez conheça agora, mas ao menos eu teria tido mais tempo com a minha mãe. Esse não-saber tão específico é a minha fundamentação. Saber disso me põe louco, sabê-lo me pôs aqui, entre os órfãos e os enfermos.
Candela
Enviado por Candela em 27/04/2020
Reeditado em 27/04/2020
Código do texto: T6929927
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Candela
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 26 anos
86 textos (1374 leituras)
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Candela