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A ReVaNchE

Ainda usando pantufas, tocou o chão pela primeira vez enquanto os flocos de neve deslizavam por sobre o basculante antiquado. Aproximou-se, afastou a cortina mofada e pôs-se a bocejar com toda a sua modorra e mausidão. Imerso em mutismo, permaneceu ali por alguns instantes, observando apático o recenseador que, distante, pelejava para se deslocar na vizinhança. “Talvez ele devesse tentar nadadeiras”, pensou, arriscando um sorriso escarnecedor. Como um sábio primado, coçou a barba aprumada, amparou a consciência com um quepe mixo e saiu sem arriscar qualquer outro palpite.

Fitou subitamente a imagem da moçoila em um quadro fixo junto à cabeceira da cama. E toda a carranca desmoronou com uma presteza insofismável, para dar lugar a uma rara mansidão e modéstia. Deixara a virilidade de lado por algum tempo, rendendo-se aos predicados daquela amásia. Ali estava ele, finalmente, sem disfarces e com algum vestígio de virtude. O amor, invariavelmente, transformara o homem valoroso, iracundo e inóspito, em um mancebo juvenil, mimoso e impressionável. “Como eu queria que você estivesse aqui”, refletiu, arriscando uma lágrima melancólica. Feito um caloiro parvo, segurou o nariz para evitar um espirro, abaixou a cabeça e retirou-se de cena poupando qualquer disparate.

Nos bastidores do dissabor, o sorrateiro ancião sentou-se diante do clássico piano de cauda para executar uma suíte para a trégua. Desfilando as notas manjadas da vida pedregosa, ele tinha a segurança de um herói não-invicto. Respirando a frialdade do espaço deixado pelo Sol, ele conseguia recordar-se, através das melodias invernais, de todos os dias exatamente iguais àquele, sintomático e quase perfeito, não fosse o ruído da campanhia a tolher-lhe a impressionabilidade. “Deve ser o recenseador”, previu, murmurando alguma desgraça. E tal qual um nababo probo, levantou-se compassadamente, ajeitou os trajes de dormir e ausentou-se sem inspirar nenhuma simpatia. Estava pronto para a revanche.
Angello
Enviado por Angello em 24/10/2007
Reeditado em 27/10/2007
Código do texto: T707721
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Sobre o autor
Angello
Salvador - Bahia - Brasil, 37 anos
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