Sou um Herói. Assaltei um Banco.

Deveria ser considerado um herói. Porque em breve doarei, de forma anônima, boa parte do dinheiro para pessoas pobres. Pobres não, miseráveis. Será como uma “bolsa família”. Havia uma razoável quantia de dinheiro nos cofres daquele banco. Roubamos. Roubamos, não, executamos uma forma de justiça. Isso não deveria ser crime. Se ter um banco e lucrar cinicamente com ele somas absurdas, escandalosas, através da exploração escancarada da impotência dos clientes, por que roubá-lo seria um crime? Ainda mais no meu caso, que dividirei o dinheiro com pessoas que realmente precisam. A polícia me procura, é claro, mas não sou um criminoso. Não matei ninguém, nem eu nem os meus companheiros de assalto. Não sou criminoso, sou um herói, um justiceiro, não importa o que diga a lei.

Os clientes do banco que possuíam bens e dinheiro nos cofres não serão prejudicados. O banco tem a obrigação legal de indenizá-los. A não ser que os clientes tenham mentido sobre o valor total do que fora depositado no banco, depositando além do que estabelecido pela cláusula limitativa do contrato de adesão. Mas aí, a culpa já não é minha. E os clientes devem ter muito cuidado com tais contratos. Geralmente, os contratos de adesão têm a furtiva intenção de sacaneá-los. Bancos são assim. Assim são os banqueiros. Não são gente honesta. Muito pelo contrário. A polícia deveria estar à procura deles e deixar-me em paz. Eu sou honesto.

Deveria ser um crime ter um banco. Todos eles são roubos legalizados. É uma forma aceita pela sociedade de se colocar a mão no bolso dos cidadãos. Todos sabem disso. Basta verificar quanto se paga de juros aos bancos em cartões, cheques, saques, empréstimos, enfim. É roubo. Mas ninguém faz nada. Não podem. Qualquer dia, será cobrada taxa para se ter o direito de se entrar em um banco, respirar o ar lá de dentro e poder conversar com seus funcionários.

Não se pode fazer nada, mas se pode assaltá-lo. É a única justiça possível. Claro que os riscos são enormes. Assaltar os cofres de um banco, fugir e nunca ser encontrado ou punido é tarefa para gênios. Não sei se sou um. Sei que o assalto foi magistralmente planejado. Até agora não fomos encontrados. Nem sabem quem foram os autores. Ao menos, por enquanto.

A polícia deveria cumprir seu papel defendendo os interesses da população e não os dos banqueiros. É a população que paga os salários dos policiais. Os banqueiros só os exploram. Há criminosos bem piores para se colocar na cadeia. Políticos, por exemplo. Por que perseguir alguém que faz um bem para sociedade como eu e meus companheiros?

Bem, mas eu entendo. A ordem deve se mantida, não é mesmo? Imaginem se todos resolverem assaltar bancos. Há muito gente incompetente e de más intenções. O que não é o nosso caso.

Primamos pela competência. Como disse, assaltar um banco, os cofres de um banco, não é tarefa para qualquer um. Há que se pensar em todos os detalhes e em todas as possibilidades. Os melhores horários, aqueles em que provavelmente haverá mais dinheiro nos cofres, as reações dos guardas, o movimento interno e externo, as rotas de fuga, o tempo necessário para o assalto, o intervalo de tempo de chegada da polícia, um possível tiroteio, contatos externos estratégicos, o que fazer com o dinheiro após o assalto de forma a não levantar suspeitas, deixar o mínimo de pistas possíveis, jamais excluir a possibilidade de existir um rato delator, e, é claro, o risco sempre presente de sermos presos ou mortos. Enfim, trabalho duro. Naturalmente, devemos ser bem recompensados.

Talvez alguns estejam se perguntando por que eu não realizei uma categoria de assalto mais fácil, mais simples, com menos riscos. É possível que estejam pensando que sou muito ganancioso, que queria logo muito dinheiro. É claro que isso não procede. Sim, eu poderia realizar roubos bem mais fáceis. Poderia, por exemplo, ser político. Ou conseguir um emprego em qualquer instituição pública. Poderia também trabalhar em universidades. Poderia ser corrupto, é tão fácil, tão banal ser corrupto. Às vezes, até mesmo ser um ótimo advogado auxilia muito em roubos. Poderia traficar drogas, afinal, hoje em dia isso é muito comum e praticamente aceito pela sociedade. Pessoas que convivemos no dia-a-dia são traficantes, pessoas tidas por honradas, exemplos de honestidade, das quais jamais desconfiaríamos. Eu poderia também traficar, sem problemas. Enfim, alternativas não faltam.

Mas eu quero que as pessoas compreendam que eu sou um assaltante verdadeiramente honesto e honrado. Assalto bancos porque isso é justo. As outras espécies de roubo não o são. E mais justo ainda quando divido o dinheiro com aqueles que realmente necessitam dele. E, enfim, assalto bancos porque gosto. É bom, dá-me prazer. E, talvez, eu não seja um gênio dos assaltos a banco e acabe sendo descoberto e preso. Mas ainda que seja assim, fiz algo na vida que valesse a pena.

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Alessandro Reiffer
Enviado por Alessandro Reiffer em 30/08/2011
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