ANTES DO FUNERAL

Albertina, entregue aos seus devaneios, olhava atônita a chuva pela vidraça turva da janela que caia tempestuosamente e molhava o piso ocre da varanda. O dia estava pardacento, os ventos sobravam em todas as direções e, ela precisava ser forte, principalmente naquele momento, em que estava acometida pela dor da sua perda. A morte trágica e repentina de Alfredo Salazar estava deixando-a enlouquecida...

Logo ela iria para o funeral do amado esposo e começou a lembrar-se da noite anterior a sua morte. Alfredo estava diferente, entrou na sala de jantar cambaleando, falando alto como se estivesse discutindo com alguém, mas entrou surpreendentemente sozinho. Albertina que era casada há muito tempo com Alfredo jamais tinha o visto assim. levantou seus olhos desanimados diante à cena, falou calmamente com o marido:

- Querido Alfredo, venha tomar um pouco de chá comigo, é que estou sentindo você tão distante, como se estivesse ausente dos nossos momentos de amor. Sinto-me tão sozinha!

- Querida Albertina, temos problemas financeiros, a nossa papelaria não está crescendo como eu pensava, com a nossa casa hipotecada é natural que eu esteja preocupado. Respondeu-lhe rápido, pois tinha um olhar perdido na imensidão do tempo.

- Meu amado, vamos resgatar o seguro que você pagou durante tanto tempo. É para isso que serve querido! Disse-lhe Albertina.

- Meu bem, o seguro que paguei foi de “vida” garante a proteção dos beneficiários ou herdeiros, em caso de meu falecimento, mas ainda estou vivo e quero continuar assim. Respondeu-lhe Alfredo e saiu imediatamente da sala.

Albertina permaneceu tomando seu chá, ela estava temerosa pelos acontecimentos, mas precisava descansar, após o chá subiu, lentamente, as escadas em direção aos seus aposentos, foi quando entrou no quarto do casal que se deparou com a pior cena de toda a sua vida. Encontrou Alfredo baleado, caído no chão do quarto, completamente inerte, parecia morto e tinha um revólver em sua mão direita, o sangue escorria, ainda da cor de rubi, pela boca, nariz e ouvidos, seus olhos estavam esbugalhados, como houvesse levado um susto ou se surpreendido com alguma coisa. O cenário era de filme de terror, pois tinha sangue espalhado em várias direções. Alfredo ainda chegou a ser socorrido, mas a residência do casal ficava muito afastada da cidade, dificultando o trajeto até o hospital e, o mesmo não resistiu ao ferimento da bala que perfurou o seu crânio e veio a falecer horas depois. Albertina chorou desesperadamente tudo que foi possível, que já não tinha mais lágrimas para derramar. Não conseguia entender o que tinha acontecido naquela fatídica noite, ninguém da casa escutou nenhum tiro, nem ela e nem os outros empregados que lá estavam e assim, todos foram interrogados. A causa da morte ficou notificada como suicídio, mas Miguel, o único irmão do falecido ficou desconfiado do resultado da perícia, pois Alfredo era canhoto e a arma que provocou a morte dele estava em sua mão direita. Porém a dor era tanta que Albertina já não raciocinava com precisão. O casal não tinha filhos e ela precisava resolver tudo sozinha.

Na manhã posterior à morte de Alfredo, antes do funeral, seria realizada a reconstituição da cena, muita dor para àquela mulher, tão sofrida, que soltava suspiros de tristeza pelos quatro cantos da casa. A chuva continuava a cair abundantemente, o som do tamborilar dos pingos da água nas vidraças despertava Albertina dos seus devaneios. Logo, o silêncio foi quebrado pela voz grave do mordomo que anunciava a chegada de Miguel e da polícia técnica.

- Dona Albertina, o senhor Miguel já chegou e deseja vê-la.

- Pode mandar entrar, por favor! Respondeu-lhe quase chorando.

Todos aqueles acontecimentos causavam muita dor e sofrimento para Albertina, que se sentia usurpada, uma invasão de privacidade em sua vida. De repente, várias pessoas ocuparam os diferentes cômodos da sua residência, como também fazendo perguntas impróprias para ela, com teor maléfico. O pior momento daquela situação foi quando um policial perguntou para ela se o falecido era canhoto. A pergunta foi a gota d’água para Albertina que ficou tonta, não controlou o stress, e caiu desmaiada no chão da sala. Despertou já em seus aposentos, poucos minutos depois, ainda atordoada pelo enxame de perguntas mal intencionadas. Mais uma vez o silêncio foi quebrado, agora, pela voz firme do jovem Miguel.

- Albertina, já está quase na hora do funeral. Estou aqui para acompanhá-la! Estão use preto para representar a sua dor!

- Miguel, não seja tão sarcástico! Eu gostava de seu irmão e ele era muito importante para mim. Você melhor de que ninguém sabia que ele estava endividado e não suportava mais a pressão dos sócios.

- Aplausos querida Albertina! Você sabe muito bem representar, é uma verdadeira artista, pois dormia comigo, quando o meu irmão viajava a trabalho, dizia me amar em nossas noites de luxúria, no aquecido do nosso ninho de amor, pois é à cama a nossa testemunha ocular, desse crime sórdido que você arquitetou.

- Basta Miguel! Eu vou receber o seguro, vender alguns objetos e vamos embora daqui. Você sabe que te amo muito!

- Albertina, tudo bem, eu vou retirar à queixa, para não ser preciso fazer a reconstituição da cena que foi adiada, hoje, por causa do seu suposto desmaio. Agora fique bonita que estarei te aguardando no carro.

Miguel se afastou e seguiu em direção ao carro, procurava não ouvir os berros de Albertina que fingia chorar... O funeral transcorreu com muita comoção, pois lágrimas que escorriam dos olhos da viúva negra se misturavam com a chuva que insistia em não parar de cair, parecia até que era o choro do falecido.

Após o sepultamento, os policiais invadiram o cemitério, o delegado se aproximou da viúva e do irmão do falecido e disse-lhes:

- Dona Albertina e Senhor Miguel, vocês estão presos pelo assassinato do senhor Alfredo Salazar. Vocês podem me acompanhar, por favor! O mordomo da casa procurou a nossa delegacia e mostrou um vídeo importantíssimo para elucidação do crime, onde à senhora atirava em seu falecido esposo na presença do senhor Miguel que foi o seu cúmplice na realização desse maquiavélico crime.

Os tempos passaram... Albertina e Miguel foram julgados e culpados pelo assassinato e continuam presos respondendo pelo crime.

“A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade.” (Salmos 119:142).

São tantas histórias assim...

Elisabete Leite – 21\01\2017

Elisabete Leite
Enviado por Elisabete Leite em 23/01/2019
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