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Gomes abriu e fechou os olhos. Enxaqueca querendo chegar. Olhou o relógio na parede da sua sala. Quatro horas da tarde. Expediente terminando. Gomes suspirou, aliviado. Poder voltar para casa - principalmente sob a sombra de uma indesejável enxaqueca - era uma dádiva.
 
Dia tranquilo aquele. Adiantara algumas investigações pendentes e conseguiu até almoçar com Jojoca e Pelicano. Comida chinesa, um shop suey delicioso. Dispensara até a cervejinha de praxe. Ao menos, a sua súbita dor de cabeça não podia ser imputada a nenhuma loira gelada.

Começou a arrumar a mesa para sair. Fechou a gaveta superior e guardou seu distintivo no bolso interno da jaqueta. Já ia levantando quando Jojoca entrou na sala, anunciando:

'Inspetor, tem um homem aqui querendo prestar uma declaração.'
 
O tom cerimonioso de Jojoca intrigou Gomes. Ele não era do tipo que gosta de falar difícil; declaração, para Jojoca, era uma palavra sofisticada demais. Se ele a estava dizendo, era certamente porque o tal homem a tinha utilizado. Jojoca estava tentando ser rigorosamente fiel ao pedido do sujeito.

O relógio marcava quatro horas e dois minutos. Tinha sido mesmo um dia tranquilo aquele. Gomes deu de ombros e disse:

'Mande entrar'.

Jojoca afastou-se um pouco e um homem de cerca de setenta anos, alto, magro, com ralos cabelos grisalhos espalhados sobre a cabeça reta e magra, entrou na sala, um pouco cabisbaixo. Tinha o rosto afogueado e os olhos avermelhados; suas mãos, ossudas e de dedos longos, estavam entrelaçadas à frente do corpo, dominadas por espasmos que denotavam intenso nervosismo. Gomes indicou-lhe uma das cadeiras à frente da mesa. Ele se sentou e ficou calado, olhando para o chão, com expressão agitada.

'O senhor quer fazer uma declaração?' - perguntou Gomes, sem a mínima idéia do que iria ouvir.

O homem assentiu. Ficou mais agitado, mais nervoso. Descansou uma das mãos na ponta da mesa. Gomes percebeu seu tremor. Olhou para Jojoca e pediu:

'Traga um copo d'água'.

Jojoca saiu, não sem antes olhar com estranheza para o homem. Gomes perguntou:

'O que o senhor deseja...' - e aí hesitou sobre qual palavra usar, mas preferiu ser fiel como Jojoca - 'declarar?'.

'Na verdade, não é uma declaração. É uma confissão'.

A voz do homem soou forte e determinada, em um inesperado contraste com o seu aspecto frágil . Até a mão que pousara sobre a mesa parou de tremer. Ele agora transmitia só firmeza e segurança. Gomes sentiu-se mais confortável.

'Uma confissão sobre o quê?' convidou Gomes, já sacando a caneta do bolso da camisa.

Jojoca retornou e colocou um copo de água á frente do homem. Ele não pareceu notar.

'Quero confessar que hoje, no início da tarde, eu matei meu melhor amigo.'

A transitória tranquilidade do homem esfumou-se. Ele desabou em um choro convulso, baixando a cabeça áté quase a altura dos joelhos, ambas as mãos a apoiarem a cabeça, como se estivesse prestes a perdê-la. Gomes olhou para Jojoca que, prudentemente, fechou a porta.

Aquele rompante durou mais de um minuto. Gomes esperou, paciente. Já vira muitas cenas como aquela. As pessoas - ou, pelo menos, parte delas - depois de cometerem um homicídio caem em si e descobrem quão insanável é o ato que praticaram. Surge, então, uma espécie de arrependimento misturado com uma sensação de profundo desespero. Afinal, os efeitos de um homicídio - ao contrário dos motivos que o inspiraram - duram para sempre.

'Como aconteceu?' perguntou Gomes, quando a força do choro diminuiu e o homem conseguiu erguer a cabeça.

'Um tiro. Um tiro apenas. Na cabeça. Mas o que eu queria dizer...'

'Foi briga?' - perguntou Jojoca, sentando na outra cadeira vaga.

O homem negou firmemente com a cabeça, antes de afirmar:

'Nós jamais brigamos. Nunca. Eu disse aos senhores: ele era meu melhor amigo. Na verdade, meu único amigo'

'Então...' - e Jojoca abriu os braços, expressando a mesma surpresa que Gomes sentia.

'Os senhores podem não acreditar em mim. Mas foi um ato de piedade.' - e o homem confirmou com um anceno positivo da cabeça a certeza da sua afirmação.

'Onde aconteceu o crime?' - perguntou Gomes.

'Em minha casa.'

'Seu amigo estava de visita?' - Jojoca parecia angustiado com a história.

'Não. Ele morava comigo.'

Jojoca olhou para Gomes e este entendeu a malícia suave no olhar do agente: 'Briga de bicha velha'. Por alguma estranha intuição, Gomes acreditava que não era nada disso.

'Por que o senhor disse que foi um ato de piedade?' - perguntou Gomes, tomando um pouco da água que o homem dispensara.

'Porque o meu amigo já quase não conseguia mais andar. Estava ficando cego. Vivia se batendo pelas pardes, pelos móveis. Também não estava mais comeendo. Tão magrinho, coitado!'.

'Que idade ele tinha?'

'Não sei bem ao certo...' - o homem pareceu fazer umas contas de cabeça, até dizer: 'Acho que uns dezessete anos.'

Gomes e Jojoca se entreolharam, desconcertados. Aquele homem devia ter matado o próprio filho ou, quem sabe, e considerando a idade dele, talvez o próprio neto. Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer algo, o homem continuou:

'Ele me foi entregue ainda bebê. Tinha uns dois meses. Era tão bonitinho e brincalhão. Eu o adotei, sabe? As pessoas são muito esnobes, não gostam de cachorro vira-lata. Mas o Pintado - o nome dele era Pintado - era muito melhor do que qualquer desses cachorros de madame que andam aí pelas ruas. Foi tão difícil! Mas eu tinha que fazer isso, o senhores entendem? Eu tinha que fazer isso!'.

A porta se abriu e uma mulher de cerca de quarenta anos, alta, também magra e com longos cabelos cor de mel irrompeu na sala. Olhou rapidamente para Gomes e Jojoca e enfim voltou-se para o velho:

'Pai. Vamos pra casa, pai.'

'Minha filha, eu estava aqui confessando...'.

'Eu sei, pai. Mas agora vamos pra casa.'

Ela tomou as maõs do pai e o ajudou a erguer-se da cadeira. Deixou um último olhar de agradecimento para trás e saiu.

'Puta que pariu! Tem louco pra tudo nesse mundo! O sujeito acha que cometeu um crime porque matou uma porra de um vira-lata! Um doido desses acha que a gente não tem mais nada a fazer?' - Jojoca explodiu, irritado.

Gomes ficou quieto. Olhou o relógio. Quatro e dezoito. Guardou a caneta e terminou de arrumar a mesa. A enxaqueca passara. Ficou sentado em silêncio. Pena que não dera tempo de anotar o nome do homem. Queria saber o nome de alguém que ainda era capaz de atormentar-se pela morte de um animal velho e doente. 'Meu único amigo', ele garantiu. E devia ser mesmo.

A confissão terminara. De algum modo, Gomes a registrou em sua lembrança. De forma indelével. Imprescritível. Lembrar-se-ia dela dali a muitos e muitos anos. Lembrar-se-ia dela toda vez que um homicida sorrisse, orgulhoso, pelo mal que praticara.

Não partilhou da indignação de Jojoca. Levantou, vestiu a jaqueta, despediu-se do pessoal e foi embora para casa, certo de que aquela fora uma ocorrência realmente importante.

No caminho para casa, pensou em ter um cachorro.








 
alexandre gazineo
Enviado por alexandre gazineo em 05/12/2007
Reeditado em 27/05/2014
Código do texto: T766168
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
alexandre gazineo
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 56 anos
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