A ESCOLA DE MANDALA

Série contos urbanos

Quando fui trabalhar na Escola Freitas de Matos, todos chamavam Maria de “a divina”. Segundo os funcionários do turno da manhã, Maria era Deus na terra. Para os copeiros, zeladores, vigias, e outros; Maria Mandala foi a melhor diretora que a Escola Freitas de Matos tivera.

Maria Mandala foi criada na melhor educação da Vila de Campos. Fez o catecismo, se confessou, e fez a primeira comunhão. Desse dia em diante, aos domingos Mandala comungava religiosamente. Seus pais, ainda vivos, exerciam uma influencia marcante em sua vida. A menina cresceu sem causar terrores para a família. Seu Adalberto dizia com muito orgulho: “Ainda vou ver Mandala como diretora do Freitas de Matos”. Mandala se tornou mulher com esse sonho na cabeça.

Mandala nunca casou. Sua mãe, dona Rosinha da Lagoa da Porta, educou a menina para ser mãe de família. “Minha filha guarde o que você tem para seu marido!” Maria Mandala gostou de um moço que, de quinze em quinze, vinha a Tobias, contudo, a suspeita dele ter família em Ilhéus foi maior que o calor de seu sentimento: “Eu dou para qualquer um, mas homem casado jamais!” O tempo passou e Mandala nunca conheceu o amor. Agora Mandala era a diretora do Freitas de Matos – A escola que dialoga com o diverso.

Quando bati à porta do Freitas de Matos com o termo de posse nas mãos, vi a figura de uma mulher branca, cabelo um pouco crespo, pele pintada de sarnas, e estatura quase a minha, um metro e setenta, eu acho. Ela usava calça jeans, uma camisa Pool cinza e sandálias de couro compradas na feira. Ela me viu no portão e veio abri-lo para minha humilde pessoa.

- Bom dia! Disse Mandala com a boca entre aberta esboçando aquele sorriso profissional.

- Bom dia! Disse eu. Ao olhar em seus olhos pela primeira vez senti a dor de uma faca afiada varando meu peito.

- Eu sou Plínio, o novo oficial. Estendi minha mão com a carta nela. Mandala olhou o documento e perguntou.

- O que você sabe fazer? Eu respondi que não sabia e que só vendo no trabalho é que poderia ver o que eu iria fazer na escola.

- Tudo bem; venha na segunda feira. Sai da Escola com o coração cheio de ansiedade e restrições. Eu havia sentido que minha ida ao Freitas seria o começo de uma triste história.

Por algum tempo fiquei sem entender o porquê que minha opinião sobre Mandala era diferente do resto da escola. Enquanto Josefa da cozinha elogiava a Maria Mandala, eu via a condição de trabalho dela e a forma como a famosa diretora geria as coisas por ali. Josefa um dia disse para mim: “Plínio, meu filho, você sabe né; ela tem esse jeito rude, ignorante, mas, é boa pessoa”. Percebi, então que a primeira motivação que inspirava as pessoas era o medo. Os funcionários temiam a Mandala porque ela havia prejudicado alguns colegas no passado, assim, eles tinham certeza que ela podia fazer novamente. Já a segunda motivação era o benefício que Mandala dava a uns em detrimento dos outros. “Mandala num gosta que a gente coma a merenda”. No entanto, alguns colegas eu via com a boca cheia de pão e outras merendas. “É, parece que nossa diretora trabalha com dois pesos e duas medidas!” Foi o que Jerônimo disse montado em uma moto velha. Jerônimo era o funcionário de máxima confiança de Maria Mandala, porém, ele não perdia a chance de dizer suas coisas sobre a diretora.

- Maria Mandala vai acabar com essa folia nos fundos da escola. Vocês vão ver!

- Jerônimo, onde estão as garrafas de água que você deixou nos freezers semana passada? Jerônimo ligou a moto enchendo a área inteira de monóxido de carbono.

- A jararaca mandou tirar tudo! Jerônimo falou mais com os olhos de que a boca. Sua expressão facial foi a de alguém muito decepcionado com Mandala.

A Escola Freitas de Matos passou quase vinte e cinco anos nas mãos de Maria Mandala. Quando eu cheguei, ela estava saindo, contudo, o povo dizia, Mandala vive saindo. Mas, o pouco tempo que eu fiquei, eu aprendi que tudo que precisava era ser eu mesmo. De nada precisei de Mandala e se precisasse ela não me ajudaria. Cinco meses passaram e eu via que tudo que fosse para me atrapalhar Mandala fazia. Não sei o porquê, mas, Mandala se tornou em meu inimigo número um. Na minha presença, uma máscara cobria o seu rosto, contudo, seus planos para mim eram maus. A mulher via na minha pessoa a imagem do diabo.

- Josefa, num gosto desse novato! Você viu que ele defende gays, maconheiros, macumbeiros e todo tipo de desgraçado social? Meu pai sempre me ensinou, “quem se junta com porcos farelos come”.

- Num é mulher! E eu estou sabendo por boca de terceiros que ele já foi casado e é separado da mulher.

- Bem que eu sentia um pressentimento; minha intuição não falha. Esse homem é um tarado, eu vejo como ele me olha! Mandala se ajeita no vestido um tanto folgado na cintura.

Agora para Maria Mandala o novo funcionário era a encarnação de toda maldade, e um péssimo exemplo para a escola. Mandala e seu grupo resolveram tornar minha humilde estada naquele estabelecimento em um verdadeiro inferno e assim foi...

Com o passar do tempo fui me acostumando com toda sorte de ofensa. Um dia, ela me pôs para digitar umas coisas no computador faltando alguns minutos para encerrar a aula. Isso me fez passar por um constrangimento muito grande perante os professores que queriam ir embora. Outra vez, ela me chamou para ficar encarregado do portão.

- Sabe, estamos precisando muito de gente na porta. Vou lhe colocar na porta então.

- Mas, meu trabalho é na secretaria cuidando dos documentos.

- Mas, aqui quem manda é eu; você vai para a porta! Minha humilde pessoa foi para o portão até que a diretora foi abordada por um ex-aluno de uma escola onde dei umas aulas.

- É verdade que o professor agora é porteiro? Foi você que desviou sua função? Parece que isso a fez lembrar-se de um passado não muito fácil. As pessoas que trabalhavam em outras escolas da mesma rede estavam acostumadas com um pequeno recesso em julho, mas, ela não deu nada no Freitas. Somente algumas pessoas tinha acesso ao descanso nessa época. As pessoas da cozinha achavam isso muito ruim, no entanto, não ousavam abrir a boca contra a diretora. Para todos os efeitos tudo que Mandala quisesse seria acolhido pelo grupo, assim, minha situação se tornava ainda pior – todo o staff ficou contra a mina humilde pessoa.

- Esse cara é louco, você não percebe que ele tem problemas mentais?

- A coordenadora Zelma Hercules me disse que ele devia tirar licença para se tratar.

- Mas, se tratar de que?

- Num sei!

Apesar das dúvidas e opiniões diversas, as pessoas que andavam na escola não entendiam o jeito do rapaz e o julgavam pelo que viam. Faziam isso por pura maldade, ou habito social. Parece que o povo de Campos se compraz em destruir a imagem dos outros. Como sofri por causa disso!

A escola Freitas de Matos era uma escola que abria o dia letivo fazendo três preces: Uma para o Pai (Pai Nosso), outra para a Mãe (Virgem Maria), e depois fazia uma média com o anjo da guarda. As crianças oravam mecanicamente; a maioria delas nem se quer sabem o que é isso “Pai Nosso que está nos céus”. Na verdade eles veem o inferno terrestre com seus pais desempregados, e uma sociedade com a renda concentrada que torna suas pequenas vidas, pequenos grandes hades aqui na terra – a terra de Campos do Rio Real.

Enquanto Mandala me torturava diariamente, minha humilde pessoa se dedicava ao trabalho da escola e ao estudo. Fiz cursos, me formei, andei para frente. Mas, mesmo assim, para o povo do Freitas, minha pessoa não era digna de nada, uma vez que eu olhava o mundo com alteridade.

- Professor, meu pai me dizia: “Quem usa tatuagem é bandido”. A colega de trabalho disse isso por causa de minha pequena tatuagem no braço esquerdo. Sempre gostei de karatê, por isso mandei desenhar na minha pele o dragão do filme de Bruce Lee.

- Não é bem assim não. Veja, tem tanta gente importante no mundo que usa tatuagem e são pessoas honestas, direitas. Isso é muito relativo. Não é o gosto estético que diz das pessoas, mas, seus verdadeiros valores morais. Ao ouvir minha última frase, a mulher frangiu as sobrancelhas e se retirou com pretexto de ir atender um aluno que chegara.

Perto do dia da consciência negra, a coordenadora, dona Zelma Hercules me abordou para saber se minha humilde pessoa tinha material sobre a cultura afro. “Nós somos uma escola aberta para o mundo”. Eu, educadamente, a respondi dizendo: “Falar do afro sem ler Nina Rodrigues, ou, o famoso Reginaldo Prandi é dizer besteira”. Parece que ela não gostou muito da ultima parte, ‘dizer besteira’. A festa da consciência negra foi totalmente sem consciência, e reforçou ainda mais a imagem do negro como um ser submisso ao branco, um ser orbitante de uma raça superior. Havia dois Pais de Santos convidados especialmente para o evento – Parece que o povo pensa que o negro só produziu religião, capoeira e acarajé, parece até que o negro quando morava na África não tinha vida, passou a viver, então, no Brasil. Os Pais de Santos foram apresentados, depois, eles fizeram uma exibição de músicas sacras do Candomblé, o que foi muito bonito por sinal. Os professores não se interessaram, e nem se quer eles se aproximaram dos sacerdotes religiosos para lhes fazer algumas perguntas, o que seria perfeitamente normal. Minha humilde pessoa foi fazer as venhas aos irmãos, filhos de nosso Pai Oxalá.

- Muito bonita sua apresentação.

- Ah, eu adoro o Candomblé. Fui feito na casa de mãe menininha aqui na Bahia.

- Eu sou Calvinista, mas, admiro muito a luta de vocês.

- Que luta?

- Essa por espaço social, por identidade?

- Ah, professor, Nós somos periféricos desde os tempos da senzala.

- O amigo fala da senzala como se ela não existisse mais. Disse isso para ele um tanto surpreso com sua alienação. E aí continuei...

- Quem vai ao seu Ilê Axé de quatro em quatro anos, não são aqueles que podem mudar essa realidade?

- Sim, sabemos, mas, eles só querem voto e pronto, ou, uma ajudinha do santo. Finalmente percebi que nosso babá não tinha ferramentas para cavar as camadas ideológicas que escondem a verdade do homem comum. Contudo tive uma curiosidade e perguntei:

- O Babá estudou onde? Onde fez o fundamental?

- No Freitas de Matos. Aqui mesmo, por isso fui convidado. Eu amo essa escola, ela dá chance para todos. Adoro a nossa diretora Maria Mandala, nunca me esqueci de sua dedicação a moral e aos valores maiores da Vila de Campos. O sintagma, ‘dedicação a moral’, me levou a Nietzsche e sua filosofia corrosiva: “A moral é a obediência cega aos costumes”. Pensei, é claro, que o filósofo não estava negando a necessidade de um código, ele estava nos chamando atenção para a relação cultura - moral, e que esta última devia ser resultado de uma abordagem a posteriore da realidade, ou seja, a moral deveria ser inspirada pela razão e não pelos mitos culturais. Despedi-me do irmão sacerdote e fui para minha sala pensar minha humilde vida. Enquanto isso, os grupos se formavam pelos apertados corredores do Freitas de Matos. As pessoas queriam saber o que o professor tinha conversado com os macumbeiros.

O tempo passou, e passou muito rápido. Pensei que Mandala se aposentaria em dez anos. Quinze longos anos se passaram, e a mulher estava sentada naquela cadeira vermelha de rodinhas pretas. Um dia pensei: “Muda a política e ela fica no mesmo lugar”. “Essa mulher deve ter parte com o cão”. Pensei novamente. Encomendei um ebó para Exu na intenção dela; eu não acreditava muito nessas coisas, mas, no sufoco tudo é válido. O ebó foi arriado, e nada da coisa ruim sair da frente.

Um dia de sábado, pela manhã, eu estava na escola pagando um dia que precisei faltar. Eu estava sozinho digitando umas coisas quando o portão abre e Mandala aparece na sua sala que ficava a uns vinte metros da minha. Ela usava uma camisa branca de algodão, sem nada por baixo. Um short jeans azul claro, muito apertado por sinal, pois, me chamavam a atenção para suas pernas e cintura, que eram bem interessantes. O perfume que Mandala usava encheu minha sala e me fez ver quem havia chegado.

- Ah, é você? Bom dia! Dei bom dia por educação.

- Bom dia Plínio! Pouca foram as vezes que ela me chamou pelo nome. Então fiquei com as antenas em pé.

- Eu quero que você passe as notas da quinta série para o mapa. Disse ela com um tom calmo. Aquele tom calmo sempre me irritava porque depois dele viria alguma ironia.

- Certo vou providenciar. Quando saia da sala ouvi novamente sua voz dirigida a mim. Ela estava calma, e continuava assim.

- Tome a caderneta! Aproximei-me novamente e peguei a caderneta de sua mão. Isso me fez olhar em seus olhos e ver que ela estava sem sutiã. A forma arredondada de seus seis rosados me deram água na boca. Eu nunca havia visto aquilo – Mandala era uma mulher muito apetitosa. A imagem da tirana, por um instante, saiu de minha humilde mente dando lugar à imagem da mulher sensual, pronta a copular. Tirei esses pensamentos da cabeça e retornei a minha sala e nela fiquei quieto pedindo a Deus que fizesse aquela mulher ir embora. Ouvi a porta de sua sala bater. Pensei – “Ela já foi. Graças a Deus!” Depois ouvi o portão trincar o cadeado. Isso me foi um alívio. Finalmente, estou só novamente. Folgo o cinto das calças e retomo as minhas atividades. Alguns segundos depois; vejo que a fragrância do perfume da moça continuava no local, agora, estava mais forte até. Deixei meu computador sobre o birô e fui em busca da fonte daquele cheiro – o que ela fazia ali? Ao chegar à porta de minha sala fui interrompido bruscamente. Mandala estava a me esperar. Seus olhos fitos em mim irradiavam uma vibração que ora parecia tesão, ora parecia ódio. Ela me empurrou para dentro de minha sala e trancou a porta. Nós dois estávamos completamente sós na Escola Estadual Freitas de Matos.

- Venha safado, venha devorar a mamãe! Enquanto sua boca se ocupava com as palavras, suas mãos despiam seu corpo rosado com pintas de sarna espalhadas por toda a epiderme. Pensei eu comigo mesmo no silencio de minha máscara social: “Que diretora gostosa!” A fera continuou seu ritual copular, minhas calças estavam no chão. Eu estava alterado e a mulher olhava o falo com muito gosto; as gotículas de água caíam naturalmente de sua boca enfeitada com uma dentadura de primeira que deve custado uns quatrocentos reais.

- Venha seu pervertido, venha me devorar! Nessa altura, a mulher estava despida sobre meu birô com minhas nádegas presas por suas unhas bem cuidadas e pintadas de vinho.

- Estou queimando por sua causa. O diabo anda com você, desde o primeiro dia, eu sabia que você era uma tentação para escola, seu safado! Venha me comer pervertido! Devo confessar que não resistir a pulsação forte na minha glande que parecia que meu membro ia derramar seu néctar de forma muito prematura. O mesmo penetrou no seu canal sentido suas entranhas e causando-lhe indizíveis prazeres. A mulher gemia e suava, dizia palavras obscenas o tempo inteiro; isso me fazia ainda mais rijo e sedento. Nossos corpos se fundiram por muitos minutos num movimento copular que nem o vento podia atravessar. Parecia que estávamos um dentro do outro.

- Coma-me safado! Quando ela dizia isso a pulsação fálica aumentava ainda mais, e eu me renovava para mais uma aventura. Deixei a mulher sonolenta sobre o birô e fui ao banheiro me lavar. Quando voltei, ela havia saído. O barulho do cadeado a denunciou para mim. Voltei ao meu serviço e vi que o computador havia gravado tudo. “Mandala estava em minhas mãos!” O tempo passou. Percebi que mandaram trocar o computador de minha sala. Pensei novamente: “Povo maldoso, acha que vou usar o filme contra a mulher”. Realmente, seria o fim de sua carreira, mas, esse jovem filho de Tobias não tinha esse coração. Ficou em minha mente todo aquele momento mágico; eu estava só, precisava daquilo, por alguns instantes senti minha vida de volta; agora, Mandala podia continuar em paz.

A confraternização de fim de ano veio logo. O ano tem passado muito rápido. Estamos perdendo a noção de tempo. Eu adoro enroladinhos. Lembro-me que havia muitos deles na Escola naquela festa de fim de ano. Comi, bebi, e depois fui para a minha vida solitária. Em casa senti calafrios a noite toda. Uma vontade forte de vômito me acompanhou o dia seguinte todo. Decidi ir ao hospital, mas, era tarde demais...

- Mulher, sabe quem morreu?

- Num foi Plínio, aquele doido que trabalhava no Freitas.

- Rapaz, dizem que ele se matou! Foi chumbinho que ele tomou. Como foi uma dose muito pequena, morreu aos poucos.

- Desde o começo eu sabia que ele era doido. Só podia dar nisso. O pior uma pessoa como essa passou pela nossa escola. É o que dá concurso público! Antigamente, os políticos colocavam gente de bem para trabalhar na coisa pública! Era muito melhor!

- É verdade mulher. Mas, coitado, num é?

- É sim; era um “siscero umano!”

- Isso mermo...

Roosevelt leite
Enviado por Roosevelt leite em 01/08/2012
Reeditado em 10/08/2012
Código do texto: T3808001
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