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Até o Fim dos Tempos

Há quanto tempo mesmo estava ali?

Maka Sicha ergueu os olhos cansados para a floresta enevoada, além da boca da caverna.

Às vezes - não saberia precisar exatamente os intervalos - era acometida por essa vaga sensação de desassossego, como se estivesse aguardando que algo ou alguém surgisse por entre as árvores. Naturalmente, nunca aparecia ninguém, e ela voltava à sua paciente rotina anterior: bordar uma bela manta de couro de búfalo usando agulhas de pinheiro que ela mesma havia recolhido no chão da floresta. Quando teria sido isso mesmo?

Às vezes se surpreendia com a simples ideia de que um dia já estivera lá fora, caminhando entre as árvores ao sol. Abanando a cabeça como que para afastar tais pensamentos ociosos, tornava a se concentrar no trabalho, até que...

Próxima à entrada da caverna, ardia uma pequena fogueira. E sobre ela, uma panela de barro onde fervia uma sopa grossa e vermelha de bagas, wojapi. Maka Sicha percebeu que estava na hora de mexer o cozido e colocou a manta de lado. Ergueu-se vagarosamente e olhou para o canto mais escuro da caverna. Havia ali alguma coisa mais escura que a própria escuridão.

- Eu sei que você não está dormindo - sussurrou ela.

Shunka Sapa, o grande cão preto como uma noite sem lua, apenas fingia dormir, ela bem o sabia. E nem fingia direito. Podia perceber distintamente o branco dos olhos entreabertos, fixos no objeto de desejo dele: a manta de búfalo.

Maka Sicha voltou-lhe ostensivamente as costas e caminhou até a fogueira. Ajoelhou-se à frente da panela e mexeu cuidadosamente a sopa wojapi.

- Não... ainda não está no ponto - resmungou.

Um ruído abafado às suas costas fez com que se voltasse. Suspirou, resignada.
Shunka Sapa havia pulado sobre a manta e agora divertia-se, sacudindo-a entre as presas brancas. Parte do seu cuidadoso trabalho de costura havia acabado de ser destruído.

- Não vai me deixar descansar, não é, cachorro?

Ergueu-se. Imediatamente, Shunka Sapa largou o brinquedo e correu de volta para as sombras da caverna. Deitou-se, fingindo dormir.

Maka Sicha não disse palavra. Sentou-se novamente com a manta no colo e avaliou os estragos. Bom, nada que não pudesse ser consertado em...

Há quanto tempo mesmo estava ali?

- [14-01-2019]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 14/01/2019
Reeditado em 15/01/2019
Código do texto: T6551170
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
1351 textos (67993 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/02/19 07:34)
Alex Raymundo