Depois do Natal: Um conto para não ser lido à noite (Cap XIV - PARA RECEBER)

O taxista não chamou a polícia.

Não que não quisesse. Afinal de contas disso dependia receber a conta da corrida.

Mas aconteceu um imprevisto.

E imprevistos sempre criam problemas, pois nunca são previstos!!!

Assim que saiu daquela rua lateral entrou na avenida. Alguém acenou, pedindo táxi. E ele, é claro, estacionou o carro: vivia disso! Era com isso que ele ganhava a vida e alimentava sua família. Pagava, ainda, as prestações do veículo com o qual vivia de transportar os outros.

Eram três pessoas.

Os três bem vestidos. O que aparentava ser mais velho de terno. Os outros dois com roupa social, bem alinhada.

E o trio entrou no carro: dois no banco traseiro e o mais novo na frente. Foi este que indicou o endereço.

Duas quadras à frente começava a parte mais rica daquela cidadezinha.

Pelo menos assim se pensava, a julgar pelas casas bem cuidadas, mansões com altos muros: fortalezas a proteger os que ali viviam, com medo; a esconder possíveis vidas inconfessáveis à sociedade.

Claro que, também aqui, as certezas nasciam das suposições. E, como sempre, a dúvida alimenta os boatos e as fantasias.

Todos sabiam, por exemplo que aquela casa – verdadeira mansão, bem desenhada, bem colorida – era a residência de um dos maiores contrabandistas e traficantes da região.

Mas, também aqui, ninguém tinha prova. Era só a certeza que nasce da suposição. Afinal, como explicar que um homem, nascido na pobreza, em tão pouco tempo se tornasse um dos homens mais ricos da região. Com certeza boa coisa não podia ser. Principalmente por que ninguém sabia, exatamente, o que ele fazia. De que vivia. Só se sabia que de vez em quando ele viajava para fora do país...

É claro que só isso não prova nada. Ou será que alguém não pode mais ficar rico, neste país? Além disso, quem é que disse que uma pessoa que mora numa mansão é uma pessoa rica? Alguém já foi conferir o que essa pessoa está devendo na praça? Além disso, quanto mais se tem mais se gasta: a ostentação custa caro!

Mas, querendo ou não, o fato é que na dúvida permanece a certeza da imaginação. Pois a dúvida alimenta a fantasia!

O endereço fornecido pelo jovem passageiro era naquela direção.

E para lá se foram. Todos em silêncio.

Bem debaixo daquele poste que estava com a lâmpada apagada o passageiro do banco traseiro, que estava bem atrás do taxista, manda-o parar.

Era na frente de outra mansão... de uma família tradicional da cidade.

Tradicional é modo de falar, pois se dizia que as fazendas da família foram conseguidas por grilagem executada por pistoleiros, naqueles tempos em que o estado ainda era só selva e uma bala tinha maior poder de argumento do que as escrituras nos cartórios.

Diziam que o velho, há muito falecido, morrera numa emboscada montada por um sitiante que tivera suas terras tomadas pelos jagunços do velho.

Mas isso, também, eram boatos. Coisas que se falava nos escondidos das conversas de fim de tarde, quando alguém pegava a recordar feitos doutros tempos. As testemunhas, se existiram, já estariam todas no cemitério ou ninguém sabe onde, enterrados no meio do mato.

E o taxista parou:

- Pois não! O senhor desce aqui? – pergunta a cortesia da profissão.

- Não! Aqui quem desce é você! – a ordem foi reforçada pelo argumento de uma pistola que o velhote apontava para a cabeça do trêmulo taxista.

Sem outra alternativa o homem desce do carro. Enquanto o jovem, que estava no banco dianteiro passa para o volante o terceiro passageiro, que também mantinha uma pistola apontada para o taxista, aponta-a para o peito do homem.

Um só disparo.

Uma pequena mancha vermelha, que no escuro parecia preta, manchou a camisa branca do homem.

O taxista está morto

- Por que fez isso, idiota? A situação estava sob controle! Ele não estava resistindo! Já tinha descido do carro...

- Não ia resistir, mas ia nos reconhecer...

Sem mais palavras mandou que o rapaz do volante pusesse o carro em movimento. E foram saindo, bem devagar. Como quem vai ao cinema!

Uma mancha de sangue escorria por baixo do corpo do taxista, tombado. Último sinal de vida daquele trabalhador do volante.

Viveu do transporte e morreu nele... E dele!

(Continua na próxima semana...)

Neri de Paula Carneiro

Rolim de Moura – RO

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