O CASO DOS IRMÃOS NAVES, UM GRAVE ERRO JUDICIÁRIO (Parte 1)

Ocorreu nos anos trinta
Essa história lamentável.
É comum que ao ler se sinta
Uma revolta notável.
Na mineira Araguari
Se passou, segundo li,
A luta de dois irmãos
Pra provar sua inocência
E dar fim à penitência
De corretos cidadãos.

Era trinta e sete o ano.
Ditadura vigorava.
Benedito Caetano
Com os Naves trabalhava.
Joaquim e Sebastião
Compraram um caminhão
Junto com o primo e sócio.
Lá nas terras das Gerais
Comércio de cereais
Eles tinham por negócio.

Ambicioso rapaz,
Da ajuda do pai dispôs.
Benedito a compra faz
Dum grande estoque de arroz.
Procurando ter mais renda,
Via lucro na revenda
O comerciante astuto.
Previsão não confirmada
Por causa da derrocada
Dos preços de seu produto.

O grão perdendo valor
E de modo acelerado,
Obrigou o tal senhor
A vender o armazenado
Com um prejuízo tal
Que vultoso capital
Pra ele não bastaria.
Noventa contos de réis
Não chegavam nem aos pés
Do que ainda ele devia.

Encontrando-se insolvente,
Em grande dificuldade,
Na surdina, de repente,
Dá o fora da cidade
Levando todo o dinheiro.
Os Naves, mais que ligeiro,
Do sumiço dão notícia.
Teria o primo morrido?
Preocupados, o ocorrido
Comunicam à polícia.

Ante o que a dupla relata,
Os trabalhos têm início.
A partir daquela data,
Começaria o suplício.
Era assim nosso Brasil,
O delegado civil
Acabou sendo trocado.
Um tenente militar
De Belô foi comandar
Esse assunto investigado.

Esse tal Chico Vieira
De valente tinha fama.
Lá da Capital Mineira
Para Araguari se chama.
Era temida a figura
Por truculência e tortura,
Predicados outros, vários.
Agiu com insensatez,
Causando o maior, talvez,
Dos erros judiciários.

Pouco após ter assumido,
Ele já tem dois eleitos.
Fica quase convencido
De que os Naves são sujeitos
Responsáveis pela morte.
Sela-se, portanto, a sorte
Dos irmãos, erroneamente.
Pelas mãos da autoridade,
Quanta desumanidade
Sofreu o sangue inocente!

Segundo Vieira, os dois
Ter matado poderiam.
Consumando, eles depois
A grana dividiriam.
Por conta dessa suspeita,
A prisão deles é feita
Para o interrogatório.
Ingressam nesse momento
No rumo do fel, tormento,
Um caminho tão inglório.

Em busca da confissão,
As torturas mais terríveis.
O tenente foi vilão,
Daqueles mais desprezíveis.
Os dois homens tão pacatos
Sofriam graves maus tratos
Em celas sujas, precárias.
Sem comida, água e sol,
Só pra começar o rol
Das maldades sanguinárias.


CONTINUA...


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