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A Prova, o Anjo, o Diabo

Bem no meio de uma prova,
(O) nome dele era Bernardo,
Criatura um tanto tola,
(O) apelido era Javardo,
Como nunca estudara
Já bolava um plano tardo.

Professor 'tava lá quieto,
Coa atenção em algum papel.
Ele achava o mestre tonto,
Era um teste de cordel.
Eis um tema muito humano,
mas Javardo era revel.

Nunca tinha assunto fácil
A Javardo, esse garoto,
(A) vida lhe era um mistério,
(O) pensamento 'tava roto,
Se o mandavam estudar
Já se ria, esse maroto.

Bem ao lado, era Cristina,
(U)ma menina muito esperta,
Se Javardo espionasse,
Marcaria a letra certa,
(En)tão o plano do menino
(E)ra essa porta bem aberta.

Porém na hora da verdade
Deu as caras um sujeito
Com bigode penteado,
(Um) medalhão vermelho ao peito,
Tinha chifres na cabeça
Mas impunha seu respeito.

O engraçado era o tamanho
Pois cabia bem num ombro,
Nosso herói 'tava assustado,
Recebeu o bicho co'assombro,
Mas mais coisa acontecia
Quando olhou pro outro ombro.

Encontrava-se bonito,
Fartos cachos amarelos,
O tamanho do primeiro,
Mas com traços bem mais belos.
Nos dois ombros do menino
Eram deuses dos duelos.

Um olhava sorridente,
O outro olhava preocupado,
Os dois 'tavam em silêncio,
(E)ra um chifrudo e um alado
Muita coisa acontecia
Mas Javardo era levado.

Sussurrou: "Meus bons senhores,
Com a vênia, dão licença,
Vocês 'tão me atrapalhando,
Não questionem minha crença.
Sei Jesus meu salvador,
Não comecem luta intensa."

O menino não sabia
Que pedir não era jeito
Pois a luta começara
Muito antes no seu peito
Quando quis colar na prova
E se dar por satisfeito.

O direito, com as asas
Quis falar sendo o primeiro,
Ele estava muito bravo
Com Javardo e o feiticeiro:
A - Ouve a mim, pobre menino
pois de Deus sou o guerreiro.

D - Em matéria de ser anjo
Vim primeiro que você,
Já existo há muito tempo,
Tenho muito a oferecer.
Ouve a mim melhor, menino,
Que eu te ensino o que fazer.

A - Sei que existe há muito tempo,
Mas foi tempo de desgraça,
Ouve a mim, pobre garoto,
Não confia nessa raça,
Que esse aí engana um novo
A cada dia que se passa.

D - Pensa bem se é enganação
Pois já tinhas decidido.
Vim cuidar que não cedesses
Às mentiras do cretino.
Cola a prova de Cristina
Para não ficar retido.

A - Se não sabes a resposta,
Tirar nota é uma mentira.
Sei que és  bem melhor que isso,
(En)tão não coles de Cristina.
Volta à casa orgulhoso,
Ter vencido a humana sina.

D - Olha quanta baboseira,
Pois que bem existe nisso?
Até parece brincadeira.
A - Pois é bem, ó seu bandido,
Vai seguir boa maneira
Sem viver vida perdido.

D - És perdido coa senhora
Vai tirar teu coro fora.
A - É pequena a punição
Comparada à contrição.
D - Contrição de boa nota
Não tem nem em anedota.

A - Pois um dia vais notar
Como é triste o teu lugar.
D - Certamente não vai ser
Pela nota a receber.
A - Não terás aonde ir
Se o Diabo a ti sorrir.

D - Olha logo pra Cristina.
A - Meu Bernardo, isso é mentira
D - Não, Javardo, tira a nota.
A - Saia logo dessa rota.
D - Sei que queres o teu dez.
A - Olha bem nossos papéis.

D - Sou razão, ele, bobagem.
A - Sou bondade, ele lavagem.
D - Sem a cola perdes chance.
A - Com a cola, teu alcance.
D - Depois podes melhorar.
A - Mas não vais, vais viciar.

D - Olhe aqui, anjo cretino,
Que é normal homem colar.
Da infância ao doutorado,
Toda gente quer passar.
Teu discurso se afundou
Quando Deus criou o mar.

A - No entanto, este garoto,
Foi bem claro em sua crença.
Tem Jesus de Salvador,
Vai fazer a diferença.
Não escolhe a rota fácil,
Tem trapaça por ofensa.

D - Foi bem claro foi na ideia
De colar de sua amiga.
E Jesus  nunca se importa
Se alguém cola de Cristina.
Pensa bem, Javardo esperto,
Se é pecado isso na vida.

A - O buraco só se afunda
Cada vez que trapaceia,
Logo estás todo perdido,
Preso em tua própria teia.
Se colar neste momento
Teu tijolo vira areia.

D -  Tem ladrão, tem assassino,
Isso, sim, a Deus preocupa,
Mas até gente decente
Copiou quando era aluna.
Quem pensar que isso é pecado
É maluco ou é maluca.

A - Meu Bernardo, vais ouvi-lo?
Não te falta inteligência
Pra saber o que é decência.
D - Nem te falta bom sentido
Pra saber que Deus bondoso
Só condena ao horroroso.

A - O diabo te dizendo
só mentiras, que estupendo.
D - E esse anjo te falando
que és malandro e te amolando.
A - Não te enganes, bom Bernardo,
Não à toa ele é bastardo.

D - Mas a nota é importante,
(En)tão decide neste instante.
A - Se colar, tu te arrependes,
Tem mais modos ascendentes.
D - Do contrário, perde um ano,
Vais entrando pelo cano.

A - Importante é ser correto.
D - Quem se importa com o reto?
A - Se colar, tu te arrependes.
D - Sempre ideias decadentes.
A - Mostra esforço nessa prova.
D - Não, é tarde a isso agora.

A - Nunca é tarde para Cristo.
D - Pois converta-se após isto.
A - Nunca é cedo pra verdade.
D - Nunca basta à cristandade.
A - Bom Bernardo, a consciência!
D - Não durante a adolescência.

A - O diabo sem vergonha
Fala contra teus preceitos.
Já aprendeste, meu Bernardo,
Como os tramas seus são feitos:
Põe a dúvida na mente
(E) come a vida dos sujeitos.

D - Ele é um anjo exagerado,
Vê pecado em toda falta,
Para alguém tão exigente
Todo grupo é uma malta.
Fica longe dessa gente
Que se diz justiça alta.

D - Nota bem, que se colares
Não vai ter nenhuma pena.
Mesmo ainda que te vissem,
Nunca é grave esse problema.
Olha logo pra Cristina,
Tira dez aí no tema.

D - Do contrário a consequência
Será dura, foge dela.
O sistema é tolo e injusto,
Sempre foi uma novela.
Querem pôr estupidezes
Por abaixo da goela.

D -  Ademais esses saberes
Todos eles são à toa,
Essa prova é indiferente,
Nota dez nem é tão boa.
Olha logo pra Cristina,
Pega aí tua coroa.

A - O diabo é muito esperto,
Ele busca a escuridão,
Faz a lógica dos tolos,
Cava adentro o coração,
Desse modo ele te engana,
Mas percebe a desrazão:

A - Não é pela consequência
De alguém vir te fazer mal,
Nem tampouco é uma questão
Ser ou não o tema banal.
É questão de honestidade,
Seguir regras, afinal.

A - Se colares neste teste
Pode nada dar de errado,
Pode ser que toda a vida
Vás feliz, despreocupado,
Pode ser que nunca sintas
Que viveste algo de errado.

A - Mas, de cima, Deus te enxerga,
Pois ninguém escapa disso,
Ele tem c'a humanidade
Seu eterno compromisso.
Será que isso não te basta?
Ou preferes ser remisso?

Ser Bernardo ou ser Javardo,
A questão de sua vida,
Se era ao anjo ou ao diabo
Que os ouvidos seus daria.
Pois enfim pegou seu lápis
E virou-se pra Cristina.

6-8/11/2019

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Feito para a apresentação de Cultura Sertaneja, no último semestre do curso de Letras.
Malveira Cruz
Enviado por Malveira Cruz em 08/11/2019
Código do texto: T6790404
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Sobre o autor
Malveira Cruz
Santa Cruz do Rio Pardo - São Paulo - Brasil, 21 anos
338 textos (4539 leituras)
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Malveira Cruz