A Noite da Consoada!...

A Noite da Consoada !...
 
Em Caravelas, toda a gente já dormia,
E quando a “janeira” acabava,
Cada um p’ra sua casa corria,
--- e nos cobertores se enfiava!
 
Desde a “neite” da consoada,
Lá ainda sobrava o borralho;
Da fogueira quase apagada,
--- Que derretia a neve e ó orvalho.
 
(...) Na semana do Natal, anterior ao verão da morte do Ti Zé Piqueno, um Pastor  de Cabras e Ovelhas da Aldeia de Caravelas  que deve ainda ser lembrado por muitos dos nascidos naquela Caravelas daquele tempo. Era um bom homem,  ele estava ali  junto do meu Pai,  no Alto dos Tojais, a guardar umas ovelhas nossas, quando ele, o Ti Zé Piqueno, que também andava por ali a guardar as cabras,  se não me engano, aproximou-se de nós e, os dois começaram ali a conversar...
O frio soprava dos lados do Quadraçal e do Vale de Asnes , de Cedainhos e lá ao longe viamos o Romeu, os Cortiços. Até Vila Verdinho. Assim os dois ficavam ali em pé e encostados contra o vento que vinha do meio do sobreiral; um encostado numa foice, e outro no cajado, que ficava seguro com a palma da mão por debaixo do Capote no sovaco,... Eu pulava num pé e noutro  pra me aquecer e já quase a choramingar com a fome –oh Pai bamos pra casa bamos!...     e foi quando eu  escutei ele dizer para mim!
- Olha rapaz!... p’ra semana o teu Pai vai comprar uma ´peixota de bacalhau’ que a tua Mãe vai cozer com batatas, nabos e  rabanetes, ou até uma couve troncha, e... depois comes umas rabanadas bem docinhas!... e aí já enches a pança!
- Ele me fez este vaticinio com tanta convicção que eu memorizei isso, pois eu estava em volta do Ti Zé Artur a pular num pé e noutro, a dizer que estava com fome,...já era tarde  e eu  queria ir para casa, porque já estava frio embora fosse ainda só a meio da tarde!... mas no Inverno os dias são curtos e as noites longas.
Guardei o diálogo na lembrança e, realmente uns dias depois aconteceu a tal “consoada” que, além do delicioso bacalhau tinha também umas postas de “congro” e, para presente de Natal,  no dia seguinte de manhã, encontrei duas laranjas – uma em cada Bota!!!...
Mas que maravilha!... a maior surpresa era  um soldadinho de chumbo, que a minha Mãe tinha encontrado dentro de um pacote de Café de Cevada – café que ela comprava em caixas de papelão coloridas de amarelo, preto e vermelho... Uma de cada vez que ela ia à Feira de Mirandela!
- Desse dia em diante passei a ser o maior consumidor de café lá da casa pois que, quanto mais depressa se acabasse o café!...  mais depressa a Ti Julheta teria que ir a Mirandela comprar outra caixa!...
E, quem sabe?... lá dentro da caixinha de café não vinha mais outro presente de Natal!?... Natal que, eventualmente, só acontecia uma vez no ano?!...e para mim,  esses Natais nunca mais aconteceram mas os recordo como se fossem hoje.
Assim era o Natal da minha infância!...
Há quanto tempo?!... eu nem sei, mas avalio o quanto de diferente tem dos dias de hoje, excepto pelo Amor e Carinho de Familia que todos os Natais nos trazem à lembrança.
 
Texto extraído do Livro homônimo:
(IN: “Curriças de Caravelas - Trovas Comentadas”)  
Autor: Silvino Potêncio
Silvino Potêncio
Enviado por Silvino Potêncio em 11/12/2010
Reeditado em 04/12/2015
Código do texto: T2665718
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