Estou em mudança. Assim mesmo: um pé cá outro lá. Embalando objetos no atual endereço e providenciando os últimos acertos no novo apartamento. 

A mudança está  entre os primeiros fatores de estresse, atrás apenas do divórcio e da morte do cônjuge. Passei pelo primeiro e sobrevivi, graças a Deus.

É certo que não estou só nessa empreitada. Sylvinha, minha filha quase arquiteta cuida do projeto e da execução. Mamãe chefia tudo e está bem cansada. 

Elas trabalham bem mais do que eu, pois fico no meio:  ansiosa e meio surtada, como o tal o "cachorro em mudança".

Assim somos três mulheres á beira de um ataque de nervos, à moda  de Almodóvar.

 

 

Para relaxar faço qualquer coisa e cinema é uma das boas opções. Após duas tentativas frustradas, consegui assistir Jogos de Amor em Las Vegas,Queria rir. Queria uma comédia romântica. Queria esquecer das caixas cheias e das que ainda tenho que encher. 
 
Comecei a dar risadas nos primeiros minutos do filme. Confesso que senti uma inveja danada dos vestidos lindos no corpo de Cameron Diaz, mas o personagem é uma graça e ela não tem culpa da minha gula.

A Vegas que vi no filme é deslumbrante em luzes, farras e alegrias. Ashton Kutcher, o protagonista, encheu meus olhos. Como é bonitinho, o marido de Demi More, gente!

O roteiro feito para divertir cumpriu seu papel e eu cheguei em casa as 23 horas muito zen e certa que iria dormir mais cedo.

Mal estacionei na garagem  o porteiro da noite  me diz que uma pessoa muito querida de nossa família e moradora do mesmo edifício havia sofrido um acidente em casa e estava no hospital vizinho.

Fui correndo saber como estava Rosinha: um anjo sem idade definida, com jeitinho de passarinho e de uma fragilidade visível. Fiquei lá apreensiva e só adormeci depois das duas da madrugadaPara nosso alívio Rosinha se recupera.
 
Acordei sem intenet. Senti aquela sensação de desespero que todo  dependente sente quando lhe falta o vício.Liguei e briguei com o  atendente do provedor.

Impotente, sai para resolver algumas coisas. Almocei com um amigo. Fiz alguns pagamentos e vim para casa.  Hoje não tinha nada urgente para fazer a tarde e eu estava sem NET.

Meus livros já estão encaixotados. Na mesa de cabeceira um livrinho com trechos da obra de Shakespeare,  outro sobre  I Ching, o Novo Testamento, um Saramago recentemente lido e Contos de Machado de Assis.

Descobri que não havia lido "O Homem Célebre" de Machado. Foi, como sempre,  uma experiência mágica ler sobre o Pestana, compositor de polcas de sucesso que aspirava ser um Bethovem, um Chopin ou um Mozart. Viveu e morreu triste por não conseguir ser mais do que Pestana e sofreu em vão.

Ao terminar o conto, liguei mais uma vez para "o suporte técnico". A moça disse-me para verificar os cabos de todos os pontos da TV, uma vez que é a mesma empresa que fornece a tv por assinatura e a banda larga.  

Saí feito cega em troteio mexendo em cada cabos dos pontos da TV e discutindo com a moça no celular. Encerrei a ligação e vim desligar o micro conformada com a situação. 

Verifiquei surpresa que a  net havia voltado e recomecei a compulsão de escrever.

 

 

Evelyne Furtado, 17 de julho de 2007.

Evelyne Furtado
Enviado por Evelyne Furtado em 17/07/2008
Reeditado em 18/07/2008
Código do texto: T1085277
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