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FARÁ O PÁSSARO O SEU NINHO NO BRASIL?


“Eis que eu acordei e vi a mais bela flor se abrir para o mundo e as massas humanas acorrendo a ela e se maravilhando até no final quando, então, ela se fechou.”

Eu até nem ia falar nada, mas, ao saber que não basta ter a melhor voz para representar o seu país, era preciso também, de acordo com os critérios deles, ser a mais bonita fisicamente falando, resolvi dizer o que vi:

A China se abrindo como uma flor rara e bela para o mundo ver; milhares de anos de civilização, invenções, descobertas, remédios, artes e por aí afora. Em que pese ter chegado à Revolução Cultural e aos seus frutos visíveis e usáveis nos dias atuais, a Flor-Chinesa quer se mostrar ao mundo perfeita, bela, irretocável; ainda que eu não consiga parar de pensar naquele monte de quinquilharias que abarrotam as barracas de camelôs e os comércios do gênero um e noventa e nove.

Irretocável não; já pude perceber que ela é toda maquiada: a Olimpíada da Maquiagem.

Disse Chang Qigang numa entrevista à Rádio de Pequim (fonte UOL Notícias), se referindo a colocação de uma duble de corpo à voz divinal da pequena Yang Peiyi: a razão disso é que precisamos colocar os interesses do país em primeiro lugar.

Pensem nisso: há interesses do país nessa imagem maquiada.

A beleza da China está dentro do Ninho do Pássaro, fora dele o “pau-está-comendo-solto”, mas, se acontece de alguém não possuir a cara condizente com os padrões do Estado, troca-se a cara; se acontecer de alguém se machucar durante a competição, esconda, esconda, aqui não há imperfeição, não nos abrimos para o mundo para nos mostrarmos exatamente como os demais humanos da face da Terra...

Ah, as flores! Como são belas as flores, como são perfeitas para a missão que têm na natureza. Não importa se nem todas são belas aos meus olhos míopes; eu posso preferir as Rosas, as Orquídeas, os Lírios, as Petúnias e você não... Mas, elas são perfeitas na sua missão de flores, independentemente dos meus, ou dos seus olhos, as testemunharem vivendo.

Falando nisso, como são belas as flores que mais sofrem para sobreviver, as flores dos desertos, por exemplo, e muito particularmente são belíssimas as flores carnívoras, símbolo puro da sobrevivência da espécie sobre o Planeta. Quando eu vi o Ninho do Pássaro se abrindo algo me incomodava; eu entrei nele, contudo, não pousei nos seus encantos, apenas sobrevoei as belezas que ele me ofertava e nem me dei conta de que ali não havia lugar para a feiúra daquele povo: Revolução Cultural, Comunismo, fome, miséria; tudo devidamente maquiado pelo computador ou pela força. Era isso, o Ninho do Pássaro era para mim uma flor carnívora: linda, bela, perfeita; fosse da natureza eu nem me importaria, mas, sendo da Natureza Humana, senti-me na condição de atraído para um banquete que acontecerá quando ela se fechar de novo... Claro que não será assim de supetão: nhoc! Não é à toa que o governo deles é oriundo de uma das civilizações mais antigas do mundo...

Mas, me distraí ao ver o nosso Presidente no Ninho do Pássaro acenando para os nossos atletas e o vi sonhando com um mega projeto de trazer as Olimpíadas para o Brasil; às vezes eu custo a perceber se o que vejo é só um sonho ou um pesadelo, se é belo ou é um horror, mas, acredite, eu vi brilhando nos olhos do nosso Presidente a cena de um Maracanã (reformado ou seria outro mega estádio especialmente construído?) completamente lotado assistindo milhares de pessoas parodiando a China no desfile da nossa civilização perante o mundo; no início, pensei que se tratasse de um desfile de escola de samba, mas, havia diferenças sutis; ainda que o “pau-não-comesse-solto” do lado fora, a imprensa noticiava (nem toda) escândalos de bilhões Reais de desvios de recursos durante a execução das diversas obras necessárias à realização da Olimpíada no Brasil.

Vou poupá-los do que vi, até para não estragar a surpresa, mas, algumas coisas nem eu me agüento sem contar: lá pelas tantas, entraram cerca de seiscentas e sessenta, quase setecentas, duplas sertanejas representando a evolução do gênero por todo o território nacional e centenas de bandas com suas evoluções, mas, respeitando as tradições, as mais antigas por primeiro; lembro-me de ter visto aquela da bundinha na garrafa – com as suas loiras e morenas, o creu, o quadrado e outras; os índios vieram representados por dubles especialmente preparados e maquiados por centenas de Ongs Ambientalistas totalmente à vontade no país, inclusive mostrando a bandeira de uma Nação Indígena sacada do território nacional e comandada por uma espécie de ONU – O-NU (Organização Nossa União) formada pelos países europeus mais os Estados Unidos; entrou, também, um bloco de mutantes, miméticos, sintéticos, moldáveis, ora parecendo um silicone verde, ora uma baba nojenta – uma coisa extraordinária que se adaptava a tudo e a todas as nuanças da vida nacional e às vontades da O-NU, das sociais às financeiras; depois, pude perceber que ela era a nossa Revolução Cultural que aconteceu, mas, não fora escondida a sua origem; em princípio era para ser a nossa Reforma Política, mas, deu xabú e se transformou na nossa Revolução Cultural; trazia uma estrela bem no alto da sétima cabeça, e, é claro, a escola de samba vencedora do último carnaval fez o fechamento ( Ah, ia me esquecendo, houve um bloco de todos os big brother representando uma das últimas evoluções da sociedade brasileira e havia um camarote especial no estádio só para os descobridores de novos talentos para desfilarem nas próximas edições das principais revistas masculinas do país, uma vez que o nu predominou em tudo, ainda que com tapa sexo ).

Pensando bem, Olimpíada no Brasil, alguém ainda vai ganhar muito com isso também. O que será que aprendemos com a China? Traremos também a tecnologia para usarmos os nossos próprios celulares como escuta? Fará o Pássaro o seu ninho no Brasil? Falando nisso, qual será a cara do nosso Pássaro?




Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 13/08/2008
Código do texto: T1125620

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 61 anos
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