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PEQUENOS GRANDES

          Quando o celular tocou, atendi displicentemente, prestando mais atenção aos objetos que me rodeavam na enorme loja de departamentos do que na voz de quem me ligava. Mas a voz nervosa indagava onde eu estava e pedia que eu saísse o mais rápido possível para a rua porque a cidade estava tremendo.  “Tudo está balançando, estamos em meio a um terremoto”, dizia.

          Eu nada sentira, porém, mais do que depressa, sai do prédio e caminhei em direção ao centro de um estacionamento, ficando distante de qualquer estrutura maior.

          Em estado de choque aguardei, em absoluta concentração e pleno medo, que a seqüência de tremores acontecesse porque sempre, depois de um grande estremecimento, outros menores se produzem como se ao estremecer uma camada da Terra se acomodassem outras tantas camadas numa similaridade a peças de dominó colocadas lado a lado, desmoronando em cadeia.

         Seguiram-se os minutos, que por sinal pareciam séculos, e nada senti. Voltei para casa com a impressão de que tudo não passara de uma brincadeira ou de um equívoco.

         Liguei o computador para ver meu correio eletrônico e a notícia estava ali estampada: - “Terremoto de 5.6 abala Los Angeles”.     Havia acontecido mesmo e eu não percebera.  Sem esmiuçar a razão pela qual eu ficara incólume ao tremor, sem nem ao menos ter estremecido como quase toda a população, continuei a ler os detalhes e tratei de tranqüilizar aos familiares distantes.

         Um pensamento puxa outro e uma cadeia de elos se estabelece, encadeando a vida numa ciranda. Veio a minha lembrança, guindada pela memória, a frase preciosa de um poema do Affonso Romano de Sant’Anna. “Às vezes, pequenos grandes terremotos ocorrem do lado esquerdo do meu peito”.

         E cheguei a sorrir ao recordar tantos e quantos tremores aconteceram também do lado esquerdo do meu próprio peito. Verdadeiros cataclismos e abalroamentos.  Intensos tremores que tiraram o fôlego, a fé, a coragem, a força. Esmagamentos provocados por dores, medos, sustos, perdas.

         Na verdade, poucos escapam de um terremoto emocional. Uma acomodação de sentimentos, um abalo interno.  Impossível medi-los pois não há uma escala específica para esse fim tal qual existe para os abalos sísmicos.  Às vezes, nada é perceptível na superfície. O que estremece o peito fica por debaixo da pele, da carne. Ninguém nota os solavancos que sacodem as nossas cordoalhas tendinosas (fibras miocárdias).

          Ficam só as ranhuras, as rachaduras, as cicatrizes, assinalando os tremores que nos abalaram.

           E a gente vai reconstruindo paredes, reerguendo muros, refazendo jardins, tentando arrumar a casa.  E consegue, até quando for possível e quanto for cabível, revestir o coração com uma folha de celofane colorido para encobrir as marcas e para disfarçar os pedaços que foram arrancados.

           Pequenos grandes terremotos no lado esquerdo do peito são acomodações, ajustes inevitáveis e dolorosos. Principalmente, quando soterram afetos e amores, sonhos e ideais.

           Gostaria de ser imune a todo e qualquer tipo de terremoto. Pequenos grandes ou de porte médio.  Tal qual esse que não senti aqui na Califórnia.

Maria Alice Estrella
Enviado por Maria Alice Estrella em 13/08/2008
Código do texto: T1127222


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Sobre a autora
Maria Alice Estrella
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
13 textos (1255 leituras)
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Maria Alice Estrella