DOM QUIXOTE QUE SOU

Descobri que sou “aquele cavalheiro”, aquele que leu tantos livros que vivera a realidade tal como um sonho, e o sonho tal como a realidade.

Ainda ontem estava lembrando do Manduca. Manduca é um rapazote, ainda de calças curtas, vive bestando por ai querendo o amor de uma moça – que apesar de ser apenas dois anos mais velha que ele – acha-se muito mais adulta que ele.

A questão é... Quem e de onde saiu Manduca? Manduca – só um pouco mais tarde em meu pensamento pude concluir – é um personagem de um romance. Acho que Manduca não existiu de “verdade”. A grande questão era de qual romance. Agora lembro que era do “Moço Loiro” de Manoel de Macedo.

O que me fez lembrar do Manduca? Um amigo, que pode me conhecer por um sorriso, pode responder tranquilamente. Deixo para que tire cada um sua própria conclusão, mesmo que nunca tenha lido referida obra.

Poderia ter me lembrado de Rodrigo Cambará pai ou filho, são personagens bem mais notáveis; podia também ser a escrava Isaura, seu amado e protetor Álvaro; podia ser G.H que num só dia, num só momento viveu tão intensamente mais forte que qualquer personagem cheio de dias; podia ter me lembrado da querida Virginia (embora esta não saísse da minha cabeça), sim esta menina tristinha e sofrida de “Ciranda de pedra”; podia ter-se guiado minha mente pelo sertão vereda tão grande onde segue o nosso caro Riobaldo e seu amigo Diadorim ou quem sabe ter pensado tão desejável de muito bem conhecer o compade Quemelem; os internos do Ateneu, principalmente em Bento Alves, tão forte e corajoso.

Manduca? Por muitos instantinhos estive a matutar quem fosse Manduca embora eu desconfiasse. Manduca sempre debochado, assim eu sabia, estava inerente guardado. Pode ter existido outro Manduca.

Na verdade é um terreno plácido este. Infantil, a ausência vai se desaparecendo aos poucos, tudo vai se tornando Sonhos.

Pareço ver-me sair como Policarpo Quaresma, mas pusilânime, quixotesco como todos nossos heróis que constrói um mundo individual que adoraria repartir com todos, contudo esse mundo mora apenas nesta imaginação inocente que se alimenta de gente que deveria existir e vive obliquamente apenas até na ficção: Como Manduca!

Rodney Aragão.