CORAÇÃO DE LADRÃO

Assisti a uma reportagem no programa “Domingo Espetacular” transmitido pela Rede Record de Televisão, mostrando uma situação inusitada, para dizer o mínimo. Arriscaria até a dizer que foi algo tragicômico, mais para cômico do que para trágico uma vez que tudo acabou bem.

O caso ocorreu na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e foi algo mais ou menos assim: a Delegacia de Polícia da cidade recebeu um telefonema, onde a pessoa dizia ter roubado um carro e que depois do ato consumado foi perceber que havia uma criança dentro do referido carro. Afirmou que ao fazer o roubo (na verdade um furto, pois não houve violência física), não percebeu que a criança estava lá dentro dormindo tranqüilamente no banco traseiro. Inicialmente pensou-se se tratar de um trote, pois, reconheça-se, esse tipo de atitude de um ladrão não é comum. Ele ainda completou a ligação dizendo onde havia deixado o carro com a criança e pedindo ao policial que o atendeu para que mandasse o “fdp” do pai ir lá para pegar o filho. Pelo que foi descoberto, os pais do menino estacionaram o carro e foram a um bar para encontrar com amigos. Até aí, nada demais. Só que deixaram o filho de cinco anos lá dentro, sujeito a toda sorte de acontecimentos, inclusive do furto do veículo, que acabou ocorrendo.

Mesmo suspeitando de trote a polícia resolveu sair atrás do problema e verificou que tudo era mesmo verdade sendo o carro encontrado no lugar informado e com a criança lá dentro, ilesa e ainda dormindo no banco traseiro.

Não se sabe quem é o ladrão e a delegada da cidade chegou a afirmar à reportagem que não iria pedir sua prisão, caso o mesmo fosse descoberto. Acabou acontecendo que o ladrão angariou a simpatia dos moradores e os pais do menino foram tachados de irresponsáveis e despreparados.

O pai ainda tentou se explicar por telefone, mas não conseguiu nada de plausível e o casal irá responder a processo.

Esse caso mostra aquilo que sempre afirmei e do qual tenho absoluta certeza. Deus, quando nos colocou aqui, o fez para sermos bons. Com as agruras e as rasteiras que muitas vezes a vida dá, muitos não agüentam e partem para o caminho da criminalidade sempre imaginando e almejando lucros fáceis e com o mínimo esforço.

Nosso personagem principal demonstra isso. Seu lado ruim manifestou-se ao dizer-lhe da necessidade e da facilidade de furtar um veículo, do qual já estava de marcação. Foi lá e fez o que achou que tinha de fazer. Ao ser surpreendido com a criança no banco traseiro, seu lado bom acabou se sobrepondo ao lado ruim fazendo com que ele tivesse a atitude elogiável de ligar para a polícia, devolver o carro e ainda pedir ao policial que mandasse o pai do menino buscá-lo.

Ao longo da minha vida sempre acreditei no ser humano e se isso deixar de acontecer, será o fim de tudo. Sei que, por muitas vezes, é difícil manter essa crença, tendo em vista as barbaridades e as maldades que vemos por aí e que nem vale a pena relatar aqui.

Mas eu continuo acreditando na bondade humana e quando vejo exemplos assim – um pouco estranhos, eu concordo – mais eu me convenço que o mundo pode ser melhor do que está.

Que esses pais tenham aprendido algo de útil com esse episódio que teve um “fora-da-lei” como “mocinho”.

E o ladrão? Bem, o ladrão deve estar muito bem, obrigado. Talvez louco de vontade de aparecer para viver seus quinze minutos de fama, aqueles a que todo ser humano tem direito ao longo da vida.

Mas, como seguro morreu de velho...

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Arnaldo Agria Huss
Enviado por Arnaldo Agria Huss em 22/09/2008
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