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DE QUEM FALO? DO QUE FALO? BAH!

             


“”Eu agora pretendo ser sério; já é tempo
Pois hoje o riso tornou-se sério. Até uma
 burla do vício pela virtude é chamada é
 um “crime” (Don Juan)


Quando Henri Beyle, consagrado sob o nome de Stendhal, publicou lá pelos idos de 1830, “O Vermelho e o Negro”, o crítico Gustave Lanson considerou um romance  de costumes, uma crônica política, ou uma crítica à sociedade.

No final do romance consta uma nota do autor que diz o seguinte: “ O inconveniente do reino da opinião, que aliás procura a liberdade, é que ele se imiscui naquilo que não lhe compete; por exemplo: a vida privada (...) Assim, para evitar tocar na vida privada o autor inventou uma pequena cidade, Verrières, e quando teve necessidade de um bispo, de um júri, de um tribunal criminal, localizou tudo isso em Besaçon, onde jamais esteve.

Como amo o meu país e as coisas ruins só acontecem na França, escolhi Besançon, - onde também jamais estive - para cenário da história que narrarei. Sendo  minha a tal história, me dou o direito de, sem cronologia, contá-la como eu quero, com as personagens que não criei e as falas que encontrei.

Se o caro leitor/leitora não entender, não tem a mínima importância, eu também não entendo a prosa do Chico  e ele tá nem ai pra mim .

E vamos aos fatos:

O crime do moço, diziam todos, estava configurado; não só Bensançon mostrava-se em polvorosa, a França toda aguardava com ansiedade a apuração dos fatos que envolviam tão ilustre e poderosa figura.

Sobre o assunto, assim expressou-se o comentarista político Saint-Beuve:  O país se lembrará por muito tempo deste processo célebre. O interesse pelo acusado chegava quase a agitação: é que seu crime era surpreendente e, apesar disso, não era atroz, E ainda que fosse, era belo este jovem! Sua alta fortuna, tão depressa terminada, aumentava o enternecimento. Conden-alo-ão? Perguntavam as mulheres aos homens de suas relações, e empalideciam  aguardando a resposta.

Para o cronista policial Schilleer, um dos momentos mais emocionantes no decorrer do processo, foi quando o suposto acusado, inquirido pela autoridade competente foi instado a declarar se o crime havia sido premeditado e se havia comparsas.

Segundo Schiller, a resposta foi a seguinte: Não espereis de minha parte, absolutamente nenhuma fraqueza. Mereci o castigo e esi-me aqui. Rezai por minha alma.

Encerrando a cobertura, Schilleer murmurou:  mas há tantos mistérios nas suas atitudes e tanta elegância no seu porte! E prosseguindo sentenciou: Foram as palavras desconexas, encontros fortuitos que se transformaram em provas da última evidência aos olhos dos homens de imaginação.

E o povo, que no pensar do Sr. La Mole, não sabia se era Deus, mesa, bacia, o que pensava a respeito do crime imputado ao belo moço. De que lado estava o povo?

O cientista político Maquiavel foi enfático ao afirmar: já que a massa não se manifestava, a primeira lei de todos ser é conservar-se. Vós semeais a cicuta e quereis ver amadurecer as espigas!

Alguém que acreditava que a causa de tudo é a nossa fragilidade, não nós: pois assim como dela somos feitos, assim somos. Dito isto,  foi ouvir Napoleão no intuito de dirimir as suas dúvidas. Napoleão saiu-se com esta: A república – hoje em dia, para um que sacrifique tudo ao bem público, há milhares e milhões que nada mais conhecem exceto os seus prazeres, a sua vaidade. Em Paris, as pessoas são consideradas pela sua carruagem e não pela sua virtude.

O acusado tudo indicava, não era o agente ativo  do crime. Tinha lá o seu Tartufo como companhia, e embora tenha o Damis tentado abrir-lhe os olhos com relação a tão má companhia, o acusado preferiu ignorar as suas advertências. Tartufo era o seu amigo secreto e prestativo, dele lembrou a última  conversa: Posso acreditar que essas palavras são um artifício  honesto... Eu não me fiaria em tão doces palavras sem que alguns favores seus, por que tanto anseio, viessem a confirmar-me tudo o que as palavras puderam dizer-me.

O acusado, em que pese as evidências gritantes do crime praticado, contava com defensores ferrenhos. Sobre um deles, manifestou   sua opinião o oposicionista Lichteember: Ora, uma vez que ficou bem convencido da estupidez e da burrice do senador-sonegador (prior) acertava comumente ao chamar preto o que era branco e branco o que era preto.

Aguardando o veredicto, caminha solitário pelo jardim que não era suspenso, mas suspeito e que, segundo o paisagista Massinger, era bastante grande, projetado havia poucos anos, com um gosto perfeito. Caminhada essa, por sob um céu negro, que prenuncia uma tempestade mais pesada e como diria Don Juan referindo-se ao acusado, com o testemunho de Beaumorchaisn: Ai! Por que essas coisas e não outras! Quando sussurou Mirabeau: Meu Deus, daí-me a mediocridade.

Pondo mais lenha na fogueira, indaga o senhor Bispo: Não valeis para mais nada ,arrojado   que estás, feito um cadáver do povo, sem alma e em cujas veias não corre sangue?

Não deixa por menos o anarquista Telêmaco e dá o seu recado: Serviços! Talentos! Méritos! Bah! Entrai para um grupinho

“Por tudo isto que eu conto, eu vi: e, se eu pude enganar-me ao vê-lo, é certo que não vos engano absolutamente ao vo-lo transmitir’.

De quem falo? Do que falo? Bah!
Zélia Maria Freire
Enviado por Zélia Maria Freire em 23/09/2008
Reeditado em 23/09/2008
Código do texto: T1192832
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Zélia Maria Freire
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil
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Zélia Maria Freire