Uma professora sem sonhos...

Uma professora sem sonhos.

Nos últimos três anos me pergunto, constantemente, como continuar em sala de aula, se não confio nas minhas palavras. O Machado de Assis é o maior escritor da Língua Portuguesa? Não. Não, foi Guimarães Rosa? Não, Não é o Fernando Pessoa? Estudar análise sintática deve ser estudado no Ensino Fundamental? Não. Não, no Ensino Médio é melhor. Alunos que não souberem os tipos de sujeitos devem rodar? Quem disse? Quem disse? Foram às pessoas do mundo real, que contam os trocados para pagar as passagens dos filhos, que sobrevivem de um misero salário mínimo, que deixam os filhos sozinhos o dia inteiro, por falta absoluta de opções?

Não foram as pessoas do mundo verdadeiro. Esses não conseguem ler nada, pois os livros são artigos de luxo restrito ao um público especifico, aqueles que possuem bem mais dígitos no contracheque. Também, raramente, vão ao teatro, cinema ou um show musical, pois os preços não são feitos para as classes populares!! Afinal, a miséria parece bonita e chique para ser discutida, nos livros, nos filmes ou num bar entre intelectuais regado a bom vinho. Entretanto, a vida real, a miséria fede, as palavras são erradas e gritadas, há piolhos, roupas sujas e rasgadas, muitos filhos e muitos cães para suprir a solidão deles, como magistralmente Graciliano Ramos mostrou em Vida Secas. Ninguém se importa... São muitas falácias....Afinal, “nois não percisa de curtura.....” Não me venhas com essa balela que os preços são acessíveis, e tal e coisa....

Pergunto-me em distintas vezes, em que momento das nossas vidas, veremos a educação assumir um papel de protagonista nos meios governamentais? No entanto, que não seja para campanhas eleitoreiras mentirosas em que, na maioria das vezes, a tríade educação, professores e alunos são usados como subterfúgios para elevar a imagem do candidato. Entretanto, invariavelmente, quando se elegem, esquecem de todas as promessas feitas, enfim, era uma falação vaga e mentirosa. Falácias... Somente falácias... Assim, também na maioria das escolas, temos uma educação de papel. No discurso do papel se escrevem todas as propostas, objetivos, projetos, leituras, teatros e sonhos, mas, na prática do dia a dia nada se realiza. Falácias, muitas falácias.... Realmente, não quero mais trabalhar....

Já não tenho mais sonhos de mudar o mundo através da educação e da política. Vivo, simplesmente, o tempo presente sem grandes esperanças de mudanças, acredito nas pessoas, não mais nos sistemas, pois, eles estão falidos pelas corrupções. Talvez, por isso, eu não deseje mais trabalhar, me faltam às palavras verdadeiras de crença, de fé no que mais gosto de fazer: dar aulas, álias, é a única coisa que sei fazer e a única que eu imaginei exercitar. Então, constitui-se num grande sofrimento a desistência de uma aspiração, continuo nas salas de aula, entretanto, já não sou mais aquela idealista. Hoje, mais uma professora dentre tantas...

Isa Piedras

20/09/2008