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** árvore da minha vida **


A tarde começava a cair quando terminava a tarefa de casa. Enquanto as letras começavam a invadir a minha vida, eu sobre a vida questionar começava...

Sempre um pouco no meu mundo, um momento de solidão, que sempre achei, era só meu. Sem tristezas, apenas um momento comigo.

Meu primeiro encontro com ela foi aos 5 anos. Sentada aos seus pés, driblando o cachorrinho que me rodeava querendo carinho. Nossa, ele parecia tão grande junto de mim,  Empurrava-o com as costas da mãozinha, parecendo usar toda força que tinha. Aos poucos ele entendia meu recadinho: - deixe-me só, apenas um pouquinho...

Esse era o momento em que aos poucos tentava juntar os recentes caquinhos da vida que mal começara, mas que insistentemente eu já queria entender. 

Ela era a única a me ouvir. Admirava o seu tamanho, o seu silêncio respeitoso (talvez daí minha admiração pelas pessoas discretas). Meu bracinho, ainda com enorme cicatriz de um acidente aos 4 anos, quando voei pela janela do carro e por pouco não morri, era uma das perguntas: - por que ainda estou aqui?

E nesse cantinho, minha amiga cedendo-me sua sombra, um mundo de perguntas pareciam me engolir. Por que meu pai é meu pai? Por que essa é minha mãe? O que faço aqui? Por que as pessoas têm que trabalhar? Por que todos os dias esse homem vem pedir esmolas no portão de casa? Ele não teria o que comer? Por que? Eram muitas perguntas para alguém tão pequena. Costumava deixar um tracinho nela, como marcando minha presença naquele dia. Pegava uma pedra e riscava seu tronco. Nessa fase da vida, um líquido branco escorria e eu chamava de leitinho da minha amiga.

O tempo passou rápido. Meus encontros diminuíam e eu sentia falta dela. Queria dizer muitas coisas que só ela ouviria. Mas os dias andavam rápido, assim como os anos. Para substituir sua falta e minha timidez, dediquei-me aos esportes, o que aliviava meus questionamentos.

Aos 12 anos, nosso encontro marcou. Tantas novidades ao pé do ouvido. Quantos risquinhos atrasados....
Por que crescia tão rápido? Por que tantas responsabilidades? Por que vivemos o amanhã? Por que o corpinho se modificava. Por que minha mãe corria tanto que parecia nunca descansar? A conversa foi longa, sua sombra, agora bem maior, parecia querer dar-me todas as respostas. Na despedida, o risco com a pedrinha. Mais forte e marcante. O líquido escorreu vermelho e vibrante.

E novamente os dias...as aulas...os treinos. Não pude avisar sobre minha primeira paixão. Estava mais difícil visitá-la. Tanto quis falar-lhe e tanto guardei...

Escolhi minha profissão sem pedir sua opinião. A vida me separara dela. Casei sem nada comentar-lhe. Sem riscar com a pedra o seu tronco. Meus filhos não a conheceram, mas ela vive em mim. Passei a recolher-me indo ao seu encontro em pensamento. Após minhas confissões, fazia um risco imaginário, aquietando-me enfim.

Mas hoje, encontrei-a em meu caminho e fiquei feliz por ainda estar por lá. As confissões foram rápidas, pois assim parece a vida andar. Sua sombra pareceu cansada, debruçada sobre o rio. No risco de despedia, um bálsamo verde vi escorrer, como um recado: "-minha menina, sempre estarei com você..."

E com lágrimas nos olhos, trouxe o bálsamo no meu coração, como da vida um alento, como conforto de uma amiga, que não me sai do pensamento.


Foto: Taci
TACIANA VALENÇA
Enviado por TACIANA VALENÇA em 27/09/2008
Reeditado em 27/09/2008
Código do texto: T1200027

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Sobre a autora
TACIANA VALENÇA
Recife - Pernambuco - Brasil
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TACIANA VALENÇA