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AMOR NO ATERRO.


Era muito cedo, tipo seis horas de um sábado que prometia calor forte no decorrer do dia. Como sempre,eu estava a caminho do trabalho.Concurso em final de semana é isso,madrugada rua à fora.

O ônibus estava lotado. Éramos todos cidadãos,maioria homens,que dirigiam-se aos seus locais de trabalho.

O povo era bem-humorado, apesar do dinheiro curto e trabalho duro.De vez em quando, alguém fazia uma piada e todos riam.Parecia uma família,animada que só.

O motorista pisava no freio de repente e gritava para explicar o motivo. Acordar os que dormiam e dar uma arrumada no ônibus.

Era uma festa.

Eu,quietinha no meu canto,entre um cochilo e outro,também acordava com os safanões causados pelo condutor sincopado.

Quando o ônibus entrou no Aterro do Flamengo, uma cena roubou a atenção de todos, inclusive a minha.

Antes,vale dizer que o Aterro é, a meu ver, um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro.Muito verde,belas palmeiras,um gramado muito bem cuidado.Também é importante que se diga, que trata-se de um local bastante perigoso.Há muitos desocupados que dormem sob a copa das árvores, crianças cheirando cola e assaltos a olho nu.

Voltemos à cena.

Em pleno gramado, um casal se amava,tendo como testemunha, o céu azul, o canto dos pássaros e o movimento da estrada que começava a ficar intenso.

Eram mendigos, que em meio a latinhas, algum lixo, uns panos meio rasgados, rolavam nus,curtindo o sexo,independente de quem passava. 

Imaginem o motorista do ônibus. Simplesmente diminuiu a marcha para deleite dos passageiros,que não perderam a chance para algumas piadinhas,muita risada, assobios, coisa e tal.

Nada parecia importunar o momento de amor daqueles dois. O que vi, fazia-me lembrar meus animais, que sem se importarem, acasalavam quando queriam.

Foi quando um senhor que estava sentado a meu lado, levantou um questionamento, um tanto meio irritado.

Perguntou a todos em voz alta, como seria a reação caso vissem naquele lugar, dois corpos sem vida, como tantos espalhados pela cidade.

_O que é mais violento, os mendigos que fazem amor ou o resultado de uma matança, uma chacina?

Deu o maior bate-boca. Uns disseram que sexo se faz escondido,que era pouca vergonha ou atentado ao pudor. Outros defendiam o sexo à luz do dia. Argumentavam sem muita fundamentação, que sexo é coisa boa demais pra se esconder. Um rapaz magrelo gritou: _Sexo tem de se fazer em qualquer lugar “mermo”!

Apenas observei os diálogos no interior do ônibus. Não poderia esperar mais do que vi, em razão da média cultural percebida por mim.

Naquela hora, apesar de adorar uma boa polêmica, reservei-me o direito de apoiar o senhor, sem muito alarde.Todavia, quero dizer, que diante das imoralidades que lemos e sabemos acontecerem todos os dias,onde fazem com o povo o mesmo que vi na grama e sem consentimento, diante das cenas de terror onde crianças usam drogas a céu aberto, diante de corpos estirados na pista, depois cheirarem cola e atravessarem-na como se fosse a sala de casa...

Senhores, querem saber?

Eu quero mais é ver sexo explícito todos os dias pela manhã,tendo sol como testemunha,na grama do famoso Aterro do Flamengo.Viva o amor!

 

 

 

 

 

 

 




Elen Nunes
Enviado por Elen Nunes em 01/11/2008
Código do texto: T1259896

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Sobre a autora
Elen Nunes
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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Elen Nunes