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WE ARE THE WORLD...

HUMANISMO EM PRETO E BRANCO

Nelson Marzullo Tangerini

                       Os anos 80, infelizmente, começaram com o assassinato encomendado do ex-Beatle John Lennon, grande pacifista, amigo de anarquistas – como John Sinclair e Jerry Rubin – e de gente da Nova Esquerda americana – como Angela Davis -, grande gênio e mentor de toda uma geração. Mas o sonho não acabou. Em todo o mundo ouvem-se canções filantrópicas, exaltando a Paz e o Amor à raça Humana.
                   A última faixa do LP Somewhere in England, Save the world (Salve o mundo), de George Harrison, ex-Beatle, que passou despercebida, em 1981, levanta a filosofia do Humanismo, denunciando desastres ecológicos, gastos militares e enaltece a luta do Green Peace, a famosa organização que tenta salvar baleias e outros animais, além de tentar impedir testes nucleares.
                   Paul McCartney e Steve Wonder, em 1982, cantam juntos Ebony and ivory (O ébano e o marfim) – as teclas negras e brancas de um piano, que vivem harmoniosamente neste instrumento musical, enquanto o Apartheid, na África do Sul segrega os negros. Depois disto, o ex-Beatle continuou gravando com músicos negros. Ao longo desta década, gravou com Stanley Clarck, Steve Wonder e Michael Jackson – e ainda assim recai sobre sua cabeça o rótulo de pedante e capitalista.
                   Ringo Starr, outro ex-Beatle posteriormente, gravaria uma canção de protesto contra o racismo declarado de Pretoria, ao lado de músicos negros e brancos. Este disco, porém, não chegou ao mercado brasileiro.
                   Indignado com a fome na socialista Etiópia, o jovem irlandês Bob Geldof, do conjunto The Boomtown Rats, consegue reunir, em 1984, um verdadeiro “cast” de músicos, entre eles Phil Collins, Sting, Paul McCartney, nas tentativa, fracassada, de angariar fundos, através do Live Aid (mais conhecido como a Banda da Ajuda), para acabar com a inanição naquele país da África. A música Do they know it´s Xmas time? (Eles sabem que é Natal?) rapidamente alcança o “top” das paradas de sucesso em todo o mundo.
                   A canção, por certo, tocou o coração de Michael Jackson, que compôs, com Lionel Ritche, We are the world (Nós somos o mundo). A dupla, seguindo o exemplo dos ingleses, consegue reunir um expressivo timaço como Ray Charles, Steve Wonder, Joe Cocker, Diana Ross, Tina Turner, entre outros, no disco, do mesmo nome da música, que também tentaria acabar com a fome na Etiópia.
                   Recentemente, nos EUA, o compositor country Paul Simon reuniu cantores e músicos sul-africanos – segregados e desempregados em seu país – no seu disco Graceland. Uma das músicas, inclusive, foi apresentada na noite da entrega do Grammy, quando Simon deu oportunidade a um grupo de cantores e bailarinos sul-africanos, em grande performance, de darem um verdadeiro “show”.
                   Com a catarse gerada pelo medo do vírus da Aids, as pessoas tomaram distância dos grupos de risco, com medo do contágio – através de um aperto de mão, de um beijo, por exemplo – quando a Aids só é transmitida através da da transfusão de sangue e do sexo sem preservativo. O melhor remédio, como diz a propaganda, - por enquanto -, é a solidariedade, a amizade, o carinho e a caridade aos portadores da doença. Se de um lado os capitalistas faturam com as camisinhas, do outro lado Burt Bacharah, Steve Wonder, Elton John, Dione Warick e Gladys Knight cantavam That´s what friends are for (Para que servem os amigos) - também apresentada na noite do Grammy -, que tem  a finalidade de levantar fundos para a pesquisa sobre a cura da Aids, transmitindo, através da música, a certeza de que estarão ali ao lado dos doentes.
                   A luta contra a fome nas socialistas Angola e Moçambique fez com que músicos portugueses, José Afonso (já falecido), Sérgio Godinho, Eugénia de Mello e Castro, entre outros, também se encontrassem num disco, em prol dos famintos das ex-colônias.
                   No mês de março último, Bob Geldof e Paul McCarteny estariam juntos novamente. Desta vez, prestando solidariedade aos músicos de jazz da Tchecoslováquia, marginalizados pelo totalitarismo, por quererem um sindicato livre e autônomo.
                    A América Latina de Tupã não ficaria para trás. Júlio Iglesias, Simone, José Feliciano, Roberto Carlos e Mercedes Sosa, entre outros, reuniram-se num disco, pouco divulgado entre nós, cuja renda seria revertida em precioso dinheiro para acabar com a fome no continente sul-americano.
                    O Humanismo pegou também nos Brasis. Chico Buarque, Fagner, Belchior, Djavan, Rita Lee, Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Roberto & Erasmo, Tim Maia, Milton, entre outros, resolveram juntar-se no SOS Nordeste, canção Reggae, com a finalidade de arrecadar fundos para as vítimas da seca no nordeste.
                    A temática do Humanismo – não confundir o Humanismo que antecede os Renascentistas, que ressuscitavam o culto das línguas e literaturas greco-latinas – permaneceu (e sempre permanecerá) na música de tanta gente como Gil, autor de Oração pela libertação da África do Sul (“Se o rei Zulu não pode andar nu (...), salve a batina do bispo Tutu (...)”) ou Milton Nascimento, autor de Lágrimas do sul (de parceria com Marco Antônio Guimarães) (“(...) Hora de humanidade, de acordar (..)”).
                   Os anos 70 só não passaram em branco porque George Harrison, Eric Clapton, Ringo Starr, Billly Preston, Badfinger, Bob Dylan, Ravi Shankar, Klaus Vorman, Badfinger, organizaram um Concerto para Bangladesh, onde víamos, no Madson Square garden, um Harrison falante, não mais ofuscado pelo brilho de Lennon & McCartney. Naquela década, ainda, em 1979, Paul McCartney, Paulo Simon, entre outros, reuniram-se a outros músicos no Concerto para Kampuchea (para os necessitados do Camboja).
                   Os anos 80 trouxeram uma nova roupagem, uma proposta mais madura de Humanismo, menos festiva e mais efetiva do que a de 60 - importantíssima. Gente nova e gente da antiga, reunindo-se e pedindo por uma chance à paz, por mais amor à Raça Humana, pela justiça social e pela caridade.
                   Se todos estes movimentos resolveram ou resolverão alguma coisa, não se sabe. Os dirigentes supremos, dos dois lados do Oceano Atlântico (ou Pacífico?), com seus corações trevosos, frios e duros, não querem ouvir os pacifistas, anarquistas, humanistas, feministas e ecologistas nas ruas. Constantemente, vemo-los sendo brutalmente espancados – prova maior de que os governos só servem para oprimir os povos. Eles querem um novo milênio sem armas – não para eles, mas para seus filhos, para seus netos. Eles sabem o que foi o Holocausto na Alemanha de Hitler; as invasões da Hungria, da Tchecoslováquia, do Afeganistão, da Estônia, Letônia e Lituânia; a guerra do Vietnã; a repressão na Polônia; o terror que caiu dos céus sobre Hiroxima e Nagazaki. E o terror de uma bomba nuclear, todo mundo pôde ver quando os reatores de Chernobyl bateram pino e inundaram Kiev e toda a Europa com sua irradiação. Infelizmente, um bom exemplo para uma tal ala de pacifistas e ecologistas, que só sabem criticar os mísseis americanos – os mísseis russos, naturalmente, são benéficos, pois a irradiação é marxista.
                   Há, hoje, uma consciência humanista muito grande em todo o mundo. O Comitê Bertrand Russel e a Anistia Internacional têm elaborado relatórios sobre os Direitos Humanos no Chile, em Cuba, no Irã, nas Coréias, na Romênia, na Turquia, na Albânia, na Indonésia, na Bulgária, na Tchecoslováquia, no Paraguai, na Iugoslávia, na Hungria, na África do sul, na Líbia, entre tantos outros países onde os tão difundidos direitos não passam nem pelo portão.
                   A semente do Humanismo está lançada. Só resta brotar em outras modalidades das artes (palmas para o filme Platoon). Afinal, todos nós, habitantes deste pequenino planeta, perdido no espaço, temos o direito de optar pela vida.
                   Por um novo milênio inteligente, sem países, sem autoridade, sem governo, sem armas e não-violento. (*)

Nelson Marzullo Tangerini, 53 anos, é escritor, jornalista, poeta, compositor, fotógrafo e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É membro do Clube dos Escritores Piracicaba [ clube.escritores@uol.com.br ], onde ocupa a Cadeira 073 – Nestor Tangerini.

(*) Publicado na revista A IDEIA, Lisboa, Portugal, janeiro de 1989, este texto sofreu pequenas atualizações.

nmtangerini@gmail.com, nmtangerini@yahoo.com.br

http://nelsonmarzullotangerini.blogspot.com/
Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 26/11/2008
Código do texto: T1304947
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Sobre o autor
Nelson Marzullo Tangerini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
310 textos (24121 leituras)
9 e-livros (127 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/19 02:22)
Nelson Marzullo Tangerini