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O Dia em que Bebi Sonífero...

      Reuniões de condomínio dão sono. Um puta sono. Calma, não fui eu quem as inventou (nunca seria capaz...). A questão é que, desde que ergueram o primeiro prédio da história, em algum ano antes de Cristo e em alguma esquina do Egito, a plaquinha de pedra que anunciava estas reuniões já causava bocejos.

      Nesses dias, ano de 2008 (depois de Cristo), um amigo participou de uma. Chegou cedo, assinou o livro de rabiscos, digo, assinaturas e escolheu uma cadeira entre algumas crianças aceleradas. Diferente dos sorrisinhos prepotentes dos moradores, elas eram as únicas que preservavam um semblante natural, receptivo e sem traumas.

      Todos sentados, a reunião já começou com uma série de tropeços verbais das “autoridades” que, supostamente, fomentariam a argumentação dos tópicos. Quando ouvi isso de meu amigo, lembrei da minha fase criança quando, ainda na escola, éramos motivados a apresentar os melhores momentos das férias em frente aos nossos amigos (...tá bom, nem tão amigos assim). Naquela época questionávamos nossos pais: “por que eu preciso aprender isso, manhêêê?”. Talvez para que não passássemos vergonha na frente dos outros quando nos tornássemos adultos.

      Quando a palavra foi aberta aos moradores, meu amigo disse que a coisa ficou mais interessante ainda. O que parecia ser a melhor oportunidade para estimular a discussão sobre novas propostas, futuras implantações, considerações financeiras e benchmark de outros condomínios, tornou-se o muro das lamentações. Cada um agarrado na incontrolável vontade de transformar o prédio em que vive em um reflexo do que gostariam de viver, resmungaram até que alguém começasse a roncar ou abandonar a sala.

      Como se não bastasse, insistiram em utilizar casos de moradores ausentes como argumento para as próprias falhas de gestão do condomínio. Se refletissem um pouco mais, perceberiam que, em pouco tempo, o fluxo natural de moradores nas reuniões condenaria aquela postura pouco autêntica, infantil e tendenciosa. “A língua é o chicote do rabo”, comentaria mais tarde esse meu amigo.

      Saber diferenciar traumas de quem não sabe viver em comunidade dos problemas reais não é exigência do mundo moderno (olha o Egito aí de novo...). O que diferencia a vontade de aprimorar relacionamentos do choramingo de quem teve o picolé derretido é justamente a postura.

      E esta, por mais que disfarce algumas hérnias comportamentais, deve sempre ser capaz de sustentar a cabeça contra o sono gerado pelos outros.

      ...mesmo que seja um puta sono.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 04/12/2008
Reeditado em 05/12/2008
Código do texto: T1318811

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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Felipe Valério