Uma quase enchente

“Mãe, começou a chover outra vez”, o menino gritou da janela, estava dependurado olhando para o céu, era a sua vez de vigiar. A mãe certamente estava na cozinha, preparando algo para o almoço. Ela veio e também olhou pela janela. O céu estava escuro e uma chuva impiedosa começava a cair. “Ligue para os carregadores, não poderemos esperar mais.” O menino foi telefonar, enquanto ela terminava de encaixotar o que faltava. Os outros dois meninos, seguidos por sua irmãzinha mais nova, vieram do quarto com seus sacos de roupa nas mãos. “Mamãe, a água já está no degrau do quintal”, um deles disse com um sorriso sem graça, não estava triste e muito menos surpreso, disse como se fosse o apresentador de um noticiário e estivesse dizendo que a cotação do dólar havia subido, nesse caso, a da água. Começaram a buzinar lá fora, haviam chegado, os homens entraram e começaram a carregar os móveis desconjuntados de tanto irem pra lá e para cá.

A chuva estava grossa, dessa vez transbordaria, teriam que mudar, não tinha outro jeito. Amontoaram os móveis ao lado de um caminhãozinho barulhento e, aos poucos, punham tudo dentro dele. Os vizinhos, em um ritmo um pouco mais urgente, faziam o mesmo, mudavam-se. Os quatro filhos enfileirados na calçada não sabiam o que fazer para consolar sua mãe que estava visivelmente desesperada por ter que abandonar sua casa, de finalmente ter que abandonar sua casa. Talvez, Deus tenha ficado com pena dela ou por um simples capricho dos céus, a chuva parou, não caía nem mais uma gota, pelo menos, por enquanto. A mãe imediatamente escancarou um sorriso e logo mandou os homens carregarem os móveis de volta para dentro da casa. “Acho que dá para agüentar mais um dia ou, pelo menos, até voltar a chover”, ela disse alegremente para os carregadores que, pela quinta vez, foram chamados por ela nessa semana e, antes que pudessem terminar a mudança, eram impedidos pela maldita chuva intermitente e pela senhora indecisa. Pronto! Fizeram como ela pediu, carregaram os móveis para dentro e empilharam as caixas perto da porta. “Deixem as caixas aí, porque amanhã fica mais fácil de carregá-las outra vez até o caminhão, muito obrigada!”

Fillipe Evangelista
Enviado por Fillipe Evangelista em 18/12/2008
Reeditado em 18/12/2008
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