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AMPUTADOS

Certas coisas só passam a fazer sentido em nossas vidas quando as sentimos na pele – no couro – literalmente, isto é, nos tocam tão profundamente que as sentimos na forma indelével de uma cicatriz no corpo.
E se estivermos entre aqueles que zombaram do infortúnio alheio, ainda que por um dos arroubos do espírito jovem diante do desejar constante de ver velhas e renitentes idéias implodirem sobre as suas gastas estruturas ilusórias, não fazendo a devida distinção entre o que é renovar-se e o que é mutilar-se?
Ah, eu sempre estive a espera das grandes mudanças, não só à espera, mas chutando-o-pau-da-barraca quando dependesse do meu chute para vê-la cair... Ao meu tempo, e ao meu modo, sempre fui um contestador; se não brandi espadas, esgrimi palavras em campos poéticos que até hoje vertem sangue fresco sobre as antigas feridas das idéias insanas que prendem as mentes e as subjugam com suas cadeias de ilusões.
Cultura é aquilo que se sedimenta com o tempo na história de um povo e, sob diversas maneiras, se apresenta e é assimilada pela geração presente que, interagido sobre ela, a incrementa, deixando nela o testemunho do seu estado de espírito; anda que a geração presente faça apenas cocô sobre ela é isso que chegará às gerações futuras. Se a geração presente a mutila, mutilações será a cultura das gerações futuras que, talvez, nem as contestem durante centenas e centenas de anos, até uma nova Renascença ou um novo Iluminismo.
Se eu ri de quem morreu se queixando de não ter conseguido assimilar direito as mudanças ortográficas acontecidas no Brasil no século passado, foi por pura falta de ler corretamente um sinal, o sinal de que, ao se alterar a forma de escrever uma língua com a qual convivemos quase o espaço de uma vida, tal coisa só se concretiza ao longo das próximas gerações, errando também em não tê-los visto como seres recém mutilados num dos seus membros culturais de uso mais freqüente: a língua escrita.
Hoje é fácil compreender o que lhes aconteceu; sinto-me um amputado num membro que, para mim, funcionava perfeitamente. É verdade sobre o que dizem os mutilados de sentirem a presença do antigo membro no seu lugar no corpo, é assim que me sinto; serei eu apenas ou seremos uma geração de amputados?
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 19/01/2009
Código do texto: T1393976

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 61 anos
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