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Historieta da 1ª República Portuguesa ( à minha maneira) - Parte X

Quando Afonso Costa regressa a Lisboa, a 6 de Dezembro de 1917, após a Conferência Económica dos Aliados, encontra Sidónio Pais instalado na cadeira do poder usurpado pela força das armas.
A revolta, ficou conhecida como “Dezembrismo”, dera-se com os soldados portugueses nas trincheiras da Flandres e em África, muitos parlamentares na frente da batalha e o chefe do Governo a negociar com a França e a Inglaterra o retorno financeiro pelo esforço de guerra. A negociação tinha corrido bem. Até tudo cair por terra devido a mais uma reviravolta política meteórica.
Machado Santos, viciado na adrenalina da revolução, fugira do presídio em Viseu para lutar ao lado de Sidónio Pais. Não restavam muitos civis para defender o regime. Ainda assim, muitos o fizeram dando a sua própria vida. Foi uma luta perdida.
Afonso Costa é preso e permanecerá na cadeia de Elvas até Março do ano seguinte. O seu antigo rival, António José de Almeida, escreverá longos e indignados protestos contra a sua detenção sem culpa formada.
O Presidente da República, Bernardino Machado é obrigado a sair do país. Partia de Entrecampos, de comboio para Paris quando o maquinista que dirigia a locomotiva sabendo do caso, abandonou o seu lugar dizendo: “Não se dirá que eu a conduzi ao exílio o Presidente da República”.
Sidónio era um homem sedento de poder. Queria ser idolatrado pelas massas. Adorava os banhos de multidão, os aplausos, os discursos inflamados. Apresentou-se como o verdadeiro salvador da pátria, fechou o Parlamento e instaurou um regime presidencialista, apoiado por um único partido: o Partido Nacional Republicano. Chamou ao seu regime, Nova República, e embora tenha convocado eleições e ter sido eleito presidente por sufrágio universal, comportou-se como um ditador.
Entretanto os nossos soldados nas trincheiras francesas foram esquecidos. O presidente não acreditava, nem estava muito interessado, na vitória dos Aliados. Tinha vivido muitos anos como ministro da República em Berlim e tinha simpatias germanófilas.
Sem serem rendidos pelos colegas que preferiram lutar contra portugueses ficaram a apodrecer na frente de guerra. Quando os seus corpos chegavam em caixões, organizavam-se espectaculares serviços fúnebres nos quais o Presidente discursava elogiando os bravos da nação. O povo aplaudia, comovendo-se, em delírio.
Foi sua estratégia, apesar de ateu, fazer uma campanha de aproximação à Igreja. No entanto, as alterações na Lei da Separação foram suaves e ligeiras.
Sidónio Pais era casado e tinha dois filhos. No entanto a família permanecia em Coimbra enquanto este tomava posse em Belém. Já no tempo em que desempenhara funções em Berlim em nome da nação, fez-se acompanhar por uma senhora que apresentara como esposa. Demonstrou ser um autêntico D. Juan. Bill Clinton, com sua Mónica e companhia, seria considerado um menino de coro comparado com este quebra-corações. Os ministros eram obrigados a esperar longas horas à porta do seu gabinete presidencial até que vissem sair alguma figura feminina, denunciada pelo rápido frufru de saias, saindo ás pressas.
O presidente, com seu charme irresistível, estabeleceu tão boas relações com as senhoras da alta sociedade que conseguiu angariar fundos para realizar várias obras de solidariedade para com os pobres. Assim se criou uma instituição de caridade•que ficou para a história com o célebre nome de “ A Sopa do Sidónio”.
Mudanças políticas, reformas, medidas para melhorar a difícil vida dos portugueses não houve nenhuma.
A onda de greves e de assaltos aos armazéns a às mercearias recomeça pois a fome era negra e a “sopa dos pobres” não enchia a barriga a milhões de homens. Faltava o carvão, o trigo, e todos os outros géneros que os Aliados tinham prometido a Afonso Costa fornecer a Portugal.
Já nesta época de fome se falava no “ orgulhosamente sós”...
Sidónio andava sempre impecavelmente fardado, hirto, e sorrindo sempre que pressentia um aplauso. Tudo era pretexto para grandes festas, no meio de gente bem. Sobre uma festa em Sintra escreveu Rocha Martins, o fiel cronista: “ Preparara-se um rally-paper e um cross-country. Muitos oficiais tinham tomado parte nele; as senhoras da alta linhagem, marquesas como a de Fontes, condessas de Alferrarede, Calhariz, Galveias, Ficalho, as filhas do duque de Palmela, Valenças e Arnosos, todo um rumor heráldico de corte ali o aguardava. Os cavaleiros tinham ido esperá-lo, e ele viera à frente do grupo, numa ala dourada de ajudantes, com a graça de um soberano. Os homens do grande mundo, Palmelas, Seisal, Carnide, Ulrich, Alfredo da Silva, o filho de João Franco, o célebre médico Cabeça, Mosers, D. Francisco de Almeida, fidalgos, príncipes da indústria e da ciência, gentlemen acorriam a ouvi-lo, enquanto decorria a corrida e vermelhavam, numa mancha alarmante de verdura, as casacas do conde de Calhariz e do ministro de Espanha.
Foram várias as revoltas contra a Nova República. As prisões estavam atafulhadas de presos.
Enquanto governante, Sidónio foi um magnífico bluff mas era genuína a paixão pelas massas que o incendiava. Pode ter tido incontáveis amantes mas a sua única e verdadeira noiva, foi sem dúvida, a nação. O homem debaixo da farda, que tivera de pedir emprestada para fazer a revolta, era sedento do amor do povo. O povo cansado, faminto, açoitado por todas as desgraças, precisava desesperadamente de salvação. A ideia de um novo Messias era hipnótica.
1918 foi um ano marcante para os portugueses. No final do Verão, no meio de tantas dificuldades, a pneumónica, também conhecida como gripe Espanhola, chega à cauda da Europa. Foi uma doença terrível, pandémica, da qual só escaparam os pólos por motivos óbvios: está lá tanto frio que até o vírus da gripe teve medo de se constipar. Morreram milhares de pessoas de forma fulminante. O desespero instalara-se na população. Só um semi-deus podia trazer um pouco de esperança às pessoas. O papel assentava-lhe que nem uma luva. De facto entranhou-se-lhe na pele e deixou de ser possível despir-se da farsa. À medida que o regime se aproximava do fim o presidente afirmava: “ninguém deseja mais a minha morte que eu!”.
A sua morte era o desfecho previsível para quem se deixou apanhar entre dois fogos. Foi um ditador que não definiu uma política e não se decidia nem pela monarquia nem pela república apesar de se dizer republicano. No fim desagradou a todos.
Dois dias antes da sua morte tinha escapado a um atentado. Aconselhavam-se medidas de segurança que rejeitou. Dizia ele: “Não meu amigo, não... A República Nova vinga... O Povo está comigo... Não há pois motivos para sustos...”
Morrerá assassinado nesse mesmo dia 14 de Dezembro de 1918, na gare do Rossio, quando tentava apanhar o comboio para o Porto.
José Júlio da Costa de apenas 25 anos disparara dois tiros de pistola que mataram o presidente e fizeram nascer um mito: O mito de Sidónio Pais. A partir daí passou a ser adorado como um santo por todo o país, que chorou a sua morte como nunca se vira chorar por nenhum rei.
Não estão claras as intenções do assassino. Nem as fontes estão de acordo quanto à existência ou não de um julgamento, uma vez que sobreviveu à retaliação da polícia. Apenas se sabe que acabou por ser dado como louco e internado no Hospital Miguel Bombarda.
Estava instalado o caos político. Os monárquicos infiltrados na máquina governativa viam uma hipótese de tomar o poder. A República Nova não vingara.
E a República conseguiria vingar?
AnaMarques
Enviado por AnaMarques em 28/01/2009
Reeditado em 27/03/2009
Código do texto: T1409544
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
AnaMarques
Lisboa - Lisboa - Portugal, 49 anos
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