Pelo direito ao livre pensar, ao livre dizer ...

      “Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração.Sábios doutores de Ética e Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventavam a palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a verdade.[Eduardo Galeano. O livro dos Abraços.]


              Incomoda-me qualquer tipo de demonstração de intolerância porque, intimamente, sei que em sua maioria, são expressões involuntárias até, de preconceitos e, no mínimo de impaciência e de indelicadeza, sentimentos abundantes nesses tempos de pressa e descuido no trato com iguais ou diferentes.
             Digo isso porque, vez ou outra, leio por aqui desabafo de autores dizendo-se cheios da mediocridade dos textos que lê, dos textos sem qualidade literária, de tanta poesia, da pretensão de muitos se dizerem poetas, cronistas, articulistas e por aí vai. Sei também que muitos engrossam as fileiras do que tal autor escreveu, elogiando sua coragem, dando-lhe razão,  abaixo assinando o texto em questão, inclusive eu, porque reconheço o quanto há de verdade, no que dizem.
            Já li também sugestões aos donos do RL que não deveriam  manter assinaturas gratuitas, para “SELECIONAR”, considerando talvez que quem tem dinheiro para  pagar uma assinatura deve  ser mais criterioso, mais letrado, mais sábio e inteligente, não agredindo portanto, a sensibilidade de quem sugeriu tão luminosa ideia.
           De minha parte, quero deixar bem claro que não desconheço nenhum dos argumentos  elencados por gente séria, que respeita as regras da escrita, que aprecia o belo e faz questão de enaltecê-lo mas, quero deixar mais claro ainda que defendo a livre expressão de qualquer manifestação da palavra dita ou escrita.
          Posso não concordar com os argumentos, achar de gosto duvidoso, concordar que não escreve considerando a norma culta, por opção ou por não saber mesmo, que não se  fez entender mas,  por ter a consciência que vivo num país, numa região e estado em que poucos tem acesso a cultura letrada, não acho justo que, por essa dívida do país com seus cidadãos(ãs),  pessoas sejam privadas de se expressarem, da forma como conseguirem.
          Ratifico: fico feliz quando alguém escreve, alfabeticamente ou ortograficamente, desde uma lista de compras, uma receita de bolo, uma trova de qualidade literária discutível, um bilhete, uma carta de amor, um poema. Me incomoda mais é quando vejo que muitos fazem colagem de textos, se inspiram em autores e não fazem menção a eles, sequer usam aspas no que publicam dos outros. E, pelo perfil, sei que LETRADOS  o fazem. Isso não é não saber escrever, é “mau caratismo” mesmo. Plágio é crime e deve ser punido. A isso, tolerância zero.
            “NOSSO PAÍS SERÁ CADA VEZ MAIS ELITISTA, SE AS INSTITUIÇÕES DE ENSINO E A PRÓPRIA POPULAÇÃO “CULTA”, NÃO ADMITIR A EXISTÊNCIA DE MILHARES E MILHARES DE LÍNGUAS PORTUGUESAS. ”* Se também advogarmos a causa de que quem deve escrever seja só quem frequentou academia, que  domine a norma culta, que tenham a sensibilidade e a profundidade de Clarice, a lucidez  e o humor do Veríssimo, a inteligência e a contundência de Drummond e a paixão de Vinícius, estaremos negando que é possível que novos bons autores possam surgir aqui, ali e alhures.
           Defendo com veemência o direito de dizer a palavra ao modo mais Freireano possível. “Superar a cultura do silêncio, dizer a sua palavra,  descobrir-se sujeito e autor da sua existência e da sua história.”**Como educadora, sei o que significa o NÃO DIZER, o NÃO EXERCER DIREITOS, o NÃO SABER.
           Peço licença ao poeta Thiago de Mello, para fazer minhas as suas sábias e generosas palavras no poema Canção para os Fonemas da Alegria, tradução mais perfeita do sentimento de felicidade e de amor ao ser humano que supera sua dificuldade em aprender a ler e escrever, passando  a conviver com  “leitura do mundo e a leitura da palavra.”**

“Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.”

*BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo - SP, Edições Loyola, 2002, 18 ed.

**Expressões do pensamento do Mestre Paulo Freire.