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A ESCOLA E O ARRASTÃO EM JABOATÃO

 
“A gente precisa ir pra casa, professor!” gritavam os alunos desesperados. Era uma tarde comum de segunda ou terça-feira do ano de 2008. Mas nem tão comum assim. Desesperos por todos os lados: mães desesperadamente chegando às escolas em busca de seus filhos. Precisavam poupá-los, guardá-los, salvá-los... A escola em polvorosa. A rotina de alguns alunos gazeadores de aula interrompida pela balbúrdia. Os corredores da escola preferida já não lhes pertenciam mais e, os mansos passeios, gritinhos estridentes, paqueras esporádicas, vendas de pulseirinhas artesanais antes praticados, perderam o privilégio. Agora precisavam dividir o espaço, tão particularmente deles, com os desesperados que antes permaneciam nas salas a ouvir e assistir  aulas ora agradáveis, construtivas e interessantes; ora tediosas e chatas. Durante anos os corredores da escola eram exclusividade deles: os gazeadores. Mas naquele dia era diferente. Aquele dia ficou marcado. Mãos frias, rostos apavorados, choros, gritos, mãos nas cabeças como se o juízo fosse estourar. Uma loucura total.  “Professor, a gente precisa ir pra casa”. – gritava um. “Daqui a pouco vai chegar aqui.” – respondia outro. “Já chegou à Vila Rica.” – afirmava um terceiro. “E  se prepara pra ir a Santo Aleixo” ... Pobre dos alunos, donos dos corredores! Nesse dia perderam espaço, não estavam sozinhos... E como fica o garoto das pulseirinhas artesanais? Como podia “trabalhar”? Nesse dia não vendeu nenhuma, não tinha como, mesmo trazendo novidades, não havia espaço para ele. Era só core, corre. Na tentativa de acalmar a turma, um professor resolveu contar a lenda da Perna Cabeluda, da Menina do Algodão que aparecia nos banheiros das escolas dos anos 70 – para ele aquela situação também parecia lendária. Não adiantou. Nada conseguia acalmar os desesperados. Parecia o fim do mundo. Naquele dia não tinha pra ninguém. O corre, corre continuava, tomou conta de todos os espaços daquela escola. Chegou à sala dos professores: “Vocês estão sabendo do acontecido?” – indagou uma professora. “Já mandei fechar as portas e janelas, sabe-se lá se chega aqui, é melhor prevenir!”- exclamou outra. Ninguém conseguiu dar aulas naquela tarde. A tarde marcada pelo alvoroço e desespero. Não demorou muito e logo o fato tomou conta de uma página virtual, foi parar no Orkut, tinha de ser. Tudo hoje em dia vai parar no Orkut, e não seria diferente com ele, não poderia ser. Em poucas horas já havia uma quantidade considerada de membros na comunidade dele, todos os alunos queriam fazer parte da “comu”. Teve um, esse mais brincalhão e destemido, que gritou do canto da sala: “Eu já faço parte dessa comunidade, professor!”. Naquele dia não deu pra ninguém... Seria trágico se não fosse cômico, Ele era muito poderoso, já conquistara seu espaço, estava na mídia. Até o Cara da “bronca pesada" já o conhecia”. Todos os olhares, todas as atenções, todos os papos, todas as ações se voltavam apenas para ele: “O arrastão em Jaboatão”

Carlos Tomaz
14 de junho de 2009
 
carlos tomaz
Enviado por carlos tomaz em 14/06/2009
Código do texto: T1648243

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Sobre o autor
carlos tomaz
Jaboatão dos Guararapes - Pernambuco - Brasil, 52 anos
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