Não me sepultem na primeira quadra

-Tere Penhabe-

Seu Pedro, um jornalista meu amigo, disse numa prosa bem feita, que queria ser sepultado na primeira quadra do cemitério... pretende continuar ouvindo os ruídos da cidade enfumaçada e barulhenta...

Já eu, não tenho esse gosto, não me apetece continuar ouvindo nada do que ouvi nesse mundo, pois foi o suficiente.

Na primeira quadra, é sempre onde ficam os corretores, os cambistas. Nisso, Seu Pedro tem razão. É exatamente lá que fervilham as ofertas para a negociação de uma passagem para o céu. O leilão é feito em nome de Jesus, em nome de Deus. Batem no peito para impressionar e nos bolsos para verem se estão sendo bem-sucedidos, se a prosa está convencendo.

Como não estarei mais em condições de pagar, o que aliás, mesmo em vida tive poucas, sei que minha presença ali só me trará contrariedades. Não poderei dizer nada... Eu que passei a vida dizendo tudo que sentia ao interessado, não posso correr o risco de ter que me calar quando mais tiver vontade de falar.

Como poeta que sou, o certo seria eu pedir que me cremassem e espalhassem as cinzas ao mar. Mas nem isso me apetece mais. Deixou de ser original, e eu sempre fui adepta da originalidade. Além do mais, o mar anda sufocado de tantas cinzas, nem sempre merecedoras do seu abraço. Coitado... Melhor poupá-lo.

Já recomendei, e volto a lembrar os responsáveis: - Não quero velório. Deixem meu corpo no necrotério o tempo usual, se for possível, mas sem aquelas lágrimas de crocodilo em volta. E as verdadeiras, não precisam derramar. Eu os absolvo dessa pena.

Não tem coisa mais chata do que velório! Principalmente para quem acha que TEM que chorar. E nem mais hipócrita. Além de custar os olhos da cara. Bah!

Portanto, amigos e inimigos, o que tiverem que fazer por mim, façam agora ou calem-se para sempre. Não esperem a minha morte para isso, pois darão com os burros nágua.

Eu sou do tipo que acredita na morte, tanto quanto na vida. E sei que a morte não será o fim, mas nada do que for feito depois dessa passagem, será de alguma valia para mim, portanto... mexam-se!

Quanto ao meu corpo... onde vão pô-lo? Em que quadra sepultá-lo? Danem-se. Isso é problema de vocês, não meu.

Eu não estarei mais nele...

Santos, 13.05.2009

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