O AROMA DAS FLORES


FOTO DE ARNALDO AGRIA HUSS

O passar do tempo está levando as pessoas a mudanças radicais de comportamento. Não o passar do tempo em si, mas as mutações que se apresentam a cada vez que o mundo avança na sua modernização.

        
     Se fizermos uma enquete perguntando o que há de ruim nos dias de hoje, muitos citarão o individualismo, do tipo que leva um a querer matar o outro para ocupar o seu lugar. Outros citarão a “apologia da grosseria” como fator marcante da nossa modernidade, aliada à falta de educação que hoje grassa abertamente por todos os cantos da nossa sociedade.


     Muitos devem ter ouvido falar do “Profeta Gentileza”, um ancião de barbas brancas que perambulava pelas ruas e avenidas do Rio de Janeiro, pregando o princípio muito simples de que “gentileza gera gentileza”. Ele morreu e com ele parece que morreu também um pouco do nosso jeito gentil e humano de ser. Gentileza, pelo que fazia, foi tido como louco, um “louco” que acreditava no amor, na bondade e na gentileza das pessoas.

     Apesar de defender que não devemos nos envolver com os problemas dos outros, porque jamais conseguiremos resolvê-los, acredito que essa fase de individualismo e grosseria tenha tido seu início quando algum iluminado disse o seguinte: “Cada um com os seus problemas”. Nesse instante foi decretado o “cada um por si” e o “salve-se quem puder”.

     Os jovens das novas gerações parecem muito sozinhos, voltados apenas para si mesmos, um tanto alienados, individualistas e extremamente dependentes da internet, chegando a ficar horas no MSN ou em salas de bate-papo  conversando com as letrinhas na telinha ao invés de procurar por pessoas reais. Aqueles que estão com mais idade protelam ao máximo a saída da casa dos pais, ao passo que nas gerações anteriores desde cedo já moravam sozinhos ou com amigos. É um retardamento no preparo para a vida e topamos por aí com adultos de seus 30 e poucos anos ainda totalmente dependentes dos pais.

     Hoje quase não se namora, não se faz amor gostoso, pois a ordem do dia é... “ficar”. Ficar é não ter compromisso algum, nada de telefonema no dia seguinte, nenhuma obrigação mútua, não se deve nada a ninguém e nem se quer saber o nome e nem onde mora a outra pessoa. O pessoal beija muito, mas muito mesmo, e vai embora, ninguém transa. Naqueles bons tempos transar era uma coisa extremamente saudável ao passo que hoje é uma aventura perigosíssima. Tem a AIDS, o HP não sei o quê, a hepatite tal, esses vírus todos que nos amedrontam e que não se sabe como e de onde surgiram.

     Na política então a mudança foi mais do que radical pois o desinteresse é preocupante. Mas, pensando bem, do jeito que está, qual pode ser a motivação? E quanto maior for o nosso desinteresse, melhor para aqueles que lá estão, que podem fazer o que bem entenderem em benefício próprio, uma vez que ninguém irá cobrá-los de nada.

     Aquilo que deveria ter mudado para melhor mas que infelizmente ficou ainda pior foi o nosso judiciário, que continua com a mesma lerdeza de sempre (talvez até um pouco mais) e promulgando sentenças altamente suspeitas, principalmente para aqueles que estão próximos do poder. Exemplos não faltam e não preciso citar nenhum.

     Com toda a modernidade de hoje e as facilidades (principalmente tecnológicas) ao alcance de quase todas as pessoas, ainda estou vasculhando minha mente para encontrar algo que me faça dizer com toda a certeza: isso veio para melhorar o mundo e as relações entre as pessoas. Está difícil encontrar.

     Nos tempos de hoje voltaram algumas convenções “dinossauras” do passado, como a hipocrisia, dominações afetivas, amores servis, imposições burguesas como o ciúme, por exemplo, o “rouba mas faz” (essa para os senhores políticos). Difícil acreditar nesse retrocesso, mas a verdade está aí, à vista de todos.

     Até um dos maiores símbolos do amor e da amizade mudou para pior. As flores. Quem teve o prazer de cultivar ou enviar e receber flores de presente, sabe do que estou falando. Um dos primeiros atos de quem recebia era procurar sentir o aroma suave e perfumado exalado pelas flores. Chegava a ser inebriante. Experimente sentir esse aroma, por exemplo, nas rosas produzidas nos dias de hoje. Simplesmente não existe.

     O aroma das rosas, assim como o perfume da vida, você só vai encontrar se cultivá-los no jardim de sua própria casa.
 
 
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