A MINHA MORTE


IMAGEM DA INTERNET

Um título no mínimo estranho para uma crônica, pois, a princípio, quem já morreu não escreve e a minha jornada por aqui ainda não terminou.
 
            Então que raio de título vem a ser este? Adianto que não foi para chamar a atenção, atraindo assim leitores desavisados e muito menos para fazer a apologia do fim.
 
            Mário Quintana declarou: “Da vez primeira que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, em cada vez que me mataram foram levando qualquer coisa minha”.
 
            A frase de Quintana não é o motivo deste texto, mas vem a calhar pelas “várias mortes” que experimentamos quando ainda em vida. Pode soar estranho, mas é isso que acontece e costumo dizer que, por muitas vezes, é preciso morrer para renascer.
 
            Clinicamente falando, já estive perto da morte pelo menos por três vezes. Duas em acidentes automobilísticos e uma por motivos de saúde. Felizmente na minha vida profissional ela não chegou a me ameaçar, mesmo atuando em áreas de alta periculosidade, como a indústria química e petroquímica.
 
            No lado emocional somos atingidos quase que diariamente por petardos vindos de todos os lados: do trabalho, da família, dos amigos e, por que não dizer, de nós mesmos? É, de nós mesmos sim, pois temos a triste mania de nos punirmos por qualquer coisa, como se a alegria e a felicidade fossem um pecado mortal e tenham que ser mantidas bem longe.
 
            O que eu quero falar aqui é sobre a morte clínica, aquela que nos leva em definitivo deste mundo físico e carnal. Nas três vezes em que ela chegou bem perto de mim, a mais traumática, sem dúvida alguma, foi aquela motivada pela saúde, mesmo que os acidentes também tenham sido graves. Nos dois cheguei desacordado ao hospital com cortes no rosto e algumas fraturas. Por muito pouco não perdi a visão do olho direito.
 
            A causa que me deixou frente a frente com ela em relação a minha saúde não vem ao caso neste texto, até porque já escrevi sobre isso. Mas o que ocorreu foi tão sério e tão doído que cheguei a ir para a Unidade de Terapia Intensiva.
 
            Trabalhando em hospital vejo situações tristes e melancólicas que acontecem no dia a dia dos pacientes e acompanhantes. Não tenho a intenção de me comparar a ninguém e nem quero dizer que os meus problemas são maiores ou menores do que os problemas dos outros. Cada pessoa é única e reage das formas mais diversas possíveis à chegada de uma doença e também perante os fatos da vida.
 
            Ninguém pode escolher a maneira de morrer, a não ser aquele que atenta contra a própria vida. Mas, se eu pudesse pedir a Deus um tipo de morte para mim, seria aquela sem dor e sem sofrimento, pois os momentos já passados me mostraram que a dor da doença dói mais do que qualquer outra, pois não é apenas física. São lancinantes essas dores que doem da doença instalada. É desalentador não se ter nunca a certeza de uma boa noite de sono.
 
            Nas minhas orações eu sempre peço a Ele que não me mantenha neste mundo em sofrimento e com extremas limitações. Que ponha fim à minha jornada sem sofrimento e sem dor e que minhas pessoas queridas aceitem o fato de que, independente de quantos anos vividos, “já havia feito o que deveria ter feito por aqui e que minha missão estava cumprida”.
 

 
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