OS FREITAS

Por Antonio de Freitas (*)

Às vezes penso em meu pai, em meu irmão, meus primos e em meu tio Benedito. São os Freitas. Sim, são os Freitas e são bons pra valer. São melhores que eu. Os Freitas são homens de bom coração, porém sem alma. Incapazes de gritar no porto ao ver o sol se pôr, são demasiado verdadeiros para se mostrarem de verdade.

Os Freitas estão por aí, e todos podem encontrá-los, na esquina, na missa, comprando um jornal, na festa nacional, ou no baile secreto. São homens cordiais, são amigos sinceros. Buscam algo que ainda não sabem. Escondem sua dor. Jamais sentiram dúvida sobre nada, os Freitas sempre possuem a frase certa e conhecem a palavra sagrada. E se vestem de diversas formas, mas sempre estão muito a gosto, seja em bermudas ou em tênis multicoloridos.

E existem mulheres que se enamoram dos Freitas. Algumas sabem quem são de verdade, mas todas conseguem dominá-los, pois os Freitas são homens de bem. A ordem, as eleições estão chegando e os Freitas já sabem em quem votar. Afinal, os filhos precisam de paz e tranqüilidade, nada de agitação. No mundo dos Freitas não há tempo para dúvidas. Que importa se jamais conseguimos fazer o gol de primeira no Maracanã lotado? Temos a tradição, o nome, o valor, as tias moças velhas em Floriano, a semana santa em Oeiras.

Alguns estão velhos, como o Antonio Rocha, outros estão mortos, como Senhor Rocha. Outros, não sabem que já morreram há muito e continuam vagando. Enfim, os Freitas estão aí, sempre escondendo o que realmente sentem, sempre calando o que todos querem ouvir.

Não esperem deles o toque de atacar, e muito menos algo incomum. Enfim, são apenas os Freitas, pessoas normais, extremamente normais. Se eles comungam, você não perceberá. E se não, você também não perceberá. Os Freitas são invisíveis.

Também não se reúnem em data marcada. Os Freitas são incapazes de marcar uma festa de família ou uma data especial. Não porque não gostem de se encontrar. Não, muito pelo contrário. Na verdade apenas tem medo de que os outros digam que não, apenas isso.

Amantes do lar, os Freitas criam seus filhos. Educação sempre esteve em primeiro lugar, afinal os Freitas acreditam na cultura e alguns, em momentos de sumo segredo, até escrevem poemas.

Sim, os Freitas caminham para o futuro, com seus segredos e suas poucas palavras, com suas cabeças baixas e seu orgulho de ferro. Eles não esperam muito do destino, isso fica para os sonhadores, não para eles. Sim, os Freitas crêem que são pessoas normais. A felicidade, meu amigo, é coisa de cinema, não é coisa que acontece todo dia, tanto mais aqui, e muito menos conosco. Afinal, pagamos impostos, economizamos dinheiro, casamos e temos filhos, somos normais. A felicidade, isso é coisa de novela, não nos faz diferença. Somos os Freitas, que mais podem esperar de nós?

escrito na cidade de Valência, Espanha na primavera de 1999.

* Antonio de Freitas é doutor em Direito e atualmente é assessor jurídico da Presidência da República.