Céu azul e grama verde.
 
Manhã de agosto. O céu está azul. Completamente azul. Cantarolo enquanto dirijo: nel blu di pinto di blu... Não sei se é assim que se escreve mas é assim que a minha lembrança canta. Nada entre mim e o azul. Um homem manco atravessa a rua. Um homem que manca. Claudica. Claudio, o manco. Aprendi isso em um livro que li. Claudius, o Imperador. Tanto tempo separando o livro e eu que a única coisa que restou foi isso. Paro na faixa e a moça atravessa, saltos tão altos que não sei como se equilibra. Calças tão justas que modelam um corpo um tanto quanto esquálido. Ela não tem irmãs. Se tivesse não sairia assim na rua. Irmãs. Eu tenho seis, sempre uma vigiando a outra. Somos sete. Escreveram antes de mim o livro A casa das sete mulheres. Cada uma na sua, todas diferentes. O que temos de igual? Não sei, não sei. Ou sei? Talvez saiba. Vejamos: Tem a Vera, Verinha. Ela briga comigo quando a chamo de Vera Lúcia. Tem o dedo verde. Tudo que planta, nasce. É a jardineira da família. Primeiro ela faz o jardim, depois a casa. Também tem olho para cor. Se ela disser: pinte sua casa de verde amarelo, pinte. Vai ficar bonito. Ela também sabe como decorar uma casa, é uma de suas profissões. E a Neuza? Já escrevi sobre ela. Houve uma época que queriam levá-la embora. Nós não deixamos e nem ela quis ir. Cento e cinco dias foi o tempo que passou na UTI. Baixinha e bravinha bateu o pé e ficou. Gosta de brincar de casinha e brinca muito bem. Suas casas são sempre muito interessantes. Houve um tempo em que teve uma cozinha vermelha. Agora transformou o terraço em um semi loft e se mudou para lá. Semi, porque o quarto é privativo. O resto vai se integrando e formando um lugar onde viver é muito gostoso. A Marilda é um pé de boi. É ela quem cuida de nossa Fábrica de Pães. Quando se levanta a lua ainda passeia no céu e o sol apenas ameaça nascer. Deficiente visual, isso não tem a menor importância. Viaja pra lá e pra cá, mas onde gosta mesmo de estar é na beira do mar com uma cervejinha gelada do lado. A Regina foi embora. Agora é Mrs Jocknevich e mora bem longe, em outro hemisfério.Tem dupla nacionalidade. Secretaria, já trabalhou com um escritor famoso. Ou quase. E tem também a Valéria. Fui eu quem escolhi o nome dela. Achava bonito. Acho ainda. Valéria cuida da alma das pessoas. É terapeuta. Tem certezas que eu não tenho. Acho que ela é a águia e eu sou a galinha. E a Márcia? Também é deficiente visual, mas nem parece. Sua casa é um brinco. É a criatura mais alegre que eu conheço, sem tempo ruim na vida. E tem uma memória que até Deus dúvida. Ela se lembra de tudo. As minhas irmãs. Pensar nelas é tão bom quanto ver um ipê amarelo. Têm muitos em meu caminho. Sou uma caçadora de ipês. Parei o carro e comecei a fotografar os ipês. Aí, um motociclista passou por mim, deu uma estancada e voltou. Queria me avisar onde estava o ipê mais bonito. Fui lá. Ele erguia-se majestoso para o alto, para os lados. No chão, um tapete amarelo. Tão lindo como naquele dia, faz muitos anos. Céu azul e grama verde. Eu olhei para o céu, eu me sentei na grama. E eu senti: o céu e a terra estavam em mim. Eu era parte do universo. Uma parte ativa, importante, única. Transcendência. Eu, além de mim. É assim que sinto às vezes. Quanto olho o céu e não há nada limitando a minha visão do infinito. Céu azul, grama verde e água cristalina. É isso que eu chamo de Felicidade.