SOBRE A CULPA DAS JANELAS DE VIDRO

Faz alguns dias, um anjo que revoava a terra chocou-se contra a vidraça de minha janela. Quebrou-se uma asa e seu vôo ao infinito deteve-se ali, entre os cacos de minha vida. Um susto súbito estremeceu meu corpo. O anjo de asa quebrada tornou-se visível. Um anjo visível é algo impossível de ser contemplado sem que sejamos vítimas de um encanto. Na terra ainda não há médicos de anjos, nem gesso, nem talas, nem hospitais... Nem sequer inventaram analgésico de anjos.

Normalmente, os anjos não sentem paixão, porque são puros. Porém, um anjo sem asa, paradoxalmente, é puro e se apaixona. Isto acontece porque a paixão é falta, neste caso, falta de uma asa. A dor do anjo é paixão e ele se apaixona pelo primeiro que compartilha sua dor. Neste caso, surpreendentemente, fui eu. Quem vê a dor de um anjo se apaixona também. Neste caso, de novo, fui eu.

Entre mim e o anjo há amor. É um amor estranho, inominável. Talvez, também, um tanto invisível. Entre tantas criaturas no mundo esperando ser amadas, fui apaixonar-me logo por um anjo que, distraidamente, passeava entre os homens! Agora sofro a sina de quem ama o impossível e que não pode sair gritando este amor pelas ruas ou escrevê-lo nas portas das catedrais.

Quem tem vidraças muito transparentes deve tomar cuidado. Um dia esta vidraça pode ferir um anjo. Mas, no fundo, quem fica com uma imensa ferida de amor para sempre será você. É que um anjo, de repente, não se sabe como, pode curar-se misteriosamente. Então, o anjo desaparece de um dia para outro. A vidraça se recompõe como que por encanto - o mesmo encanto de quando tudo começou. Um risco indelével e desengonçado na vidraça é o único vestígio que restará de minha pequena história.

A paixão por um anjo é uma das verdades que jamais aceitam ser ditas neste mundo. Ao menos por enquanto.

* De meu livro POR QUE OS HOMENS NÃO VOAM? WS Editor,já na 3a. Ed.

Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 03/07/2006
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