UM CHORO NA ESCOLA,,,

UM CHORO NA ESCOLA...

(Theo Padilha)

O Cenário - Pátio de uma pequena escola pública do interior paranaense.

O Tempo - um início de primavera. Ah! Primavera. Quantas histórias de amor abrigaste no teu colorido passado!

Os Personagens – Além de todo o aparato colegial, a infeliz adolescente Helena, que nada tem a ver com a famosa rainha troiana Nem em beleza, nem em opulência. Aluna da sexta série, na terceira reprovação, 14 anos.

Já o nosso protagonista tem todos os atributos de Apolo, grego deus da beleza. Uma criança na sua tenra idade de onze anos, cursando a quinta série daquela escola. – Édipo, é o seu nome.

Quis o destino que Helena, na sua ansiedade animal, tal qual uma cachorra no cio, vá tingir com a negra tinta de sua maligna frustração, o casto coraçãozinho de Édipo, seduzindo-o e ali depositando todo o seu impiedoso veneno.

Essa já tinha repassado todo o colégio em busca de um par que a ajudasse saciar sua felina tara. E não encontrando ninguém, em consequência de seu malicioso comportamento com todos, volta suas presas para o inocente menino, desprotegido, incólume, num frenesi de instinto arrebatador aliado ao pecado.

Mas o pequeno Édipo ficou muito feliz. E se entregou de corpo e alma àquele amor. Mudou seu comportamento. Separou-se de seu grupinho. Já não era mais o tricolor do Morumbi seu assunto. Nem os dribles de Kaká. Agora só Helena preenchia o seu angelical coração. Até suas roupas ficaram diferentes, se pudesse usar terno e gravata, certamente nosso diminuto heroi o faria. E os dias foram passando lentamente, como nas histórias de Hitchcock, o mago do suspense ou como nos trágicos contos de Shakespeare.

─ Vejam meu namorado! – gritava a moça, pelos corredores da escola, abraçando e beijando o inofensivo garoto com o seu hálito de cigarro barato. E Édipo correspondia àqueles carinhos, timidamente.

─ Beleza! – murmurava o menino. Envolvido naqueles braços cheios de hematomas de mordidas e disformes tatuagens.

Aquele gesto até poderia provocar o riso dos colegiais, se a impudência da jovem não fosse cínica, malévola e sarcástica.

Édipo acreditava naquele amor. “Bem feito” - para aquela menina da quinta série que não entendeu o seu flerte... Pensava o menino, na sua inge-nuidade.

Mas um dia a loucura de Helena foi sumindo. Édipo sentia a perda. Mas nada podia fazer para agrilhoar aquele romance. Ela passou a se esconder do garoto no pátio do colégio. Às vezes faltava às aulas. Gazetear aulas para ela era coisa normal.

Mas o que jamais temia, Édipo viu. Sua deusa abraçando e beijando, no fundo da escola, um rapaz que tinha pulado o muro para vê-la. Mais um do elenco de namorados com quem ela ficava.

─ O que é isso Helena? – disse o menino com a voz embargada pelo amor, quase chorando. Helena e o malandro riram da cara dele.

─ É isso aí meu chapa! Vamos parar de brincadeira agora, tá? – exclamou Helena.

Foi o fim. A melancolia, a tristeza tomou conta daquele puro coração. Toda a escola ficou comovida e até hoje existem comentários nos corredores dessa escola. Um dia esse bonito menino vai saber que ninguém morre do primeiro amor, o último é que mata.

©All the rights by Theo Padilha. Joaquim Távora, 23 de outubro de 2009. 4 h.

Theo Padilha
Enviado por Theo Padilha em 23/10/2009
Reeditado em 24/10/2009
Código do texto: T1882190
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