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Aula de Anatomia

Ao aproximar-se do corpo, tesoura na mão, o cirurgião solicita a uma aluna que está à sua frente, calçando luvas também, que “lhe dê campo”; introduzindo uma vez mais o jargão da profissão de maneira coloquial – coisa que não passa despercebida para alguns dos outros. Ela lhe oferece o ligamento gastrocólico meio esticado, e ele logo percebe, ali de permeio, a “espuminha” que costuma guiar as mãos que dissecam meandros humanos.


Mãos que se movem quase sozinhas, em uma espécie de emoção devota a aqueles que o antecederam e ensinaram. Que aprenderam com outros, e estes com outros ainda, mais velhos, em uma sucessão quase infinita, que retrocede muito além do que alcança a débil compreensão humana.


“Abre-se uma picada e logo se avista o estradão”, diziam alguns dos amigos simples que conhecera ao longo da carreira, ao descrever o momento em que “se acha um planinho” para dissecar. É o segredo vital de sua profissão. Então deixa a tesoura escorregar na gordura e no formol, e num átimo descortina a bolsa omental – “retrocavidade dos epíplons”, sua mente teima em chamar – soltando o pâncreas de aderências frouxas ao estômago e ao mesocólon. Ao fim da descida ao vale retroperitoneal, seus dedos descobrem o baço, e o hilo, e a flexura esquerda que não o impede de apreciar o resultado obtido.


A turma solta um “Oh!” irreprimível, inesquecível, logo complementado por elogios variados, atropelados, multissonantes.


O cirurgião não se abala, embora sinta em sua alma um arrepio que só absorverá em plenitude mais tarde, ao narrar a cena, em casa.


Na ponta do indicador sente a área pancreática do baço; ao levantá-la, os vasos do hilo em seu coxim linfático e gorduroso. Retira a mão enquanto fala, possuído de uma relevância inaudita, em palpar o corpo do estômago, o piloro; depois descer pelo pâncreas até o fundo da bolsa – repetindo instruções para o uso do indicador e sua ponta – até que – voilá! – lhe vem à mente a idéia final, apoteótica, presente somente quando mais um dos alunos já está lá, com a manga enterrada entre as tripas.


“Retire sua mão e inverta a posição, meu filho. Introduza o polegar então, lá próximo ao hilo, e abrace o baço com os teus outros dedos...


”É com satisfação renovada que o cirurgião se senta em frente a uma das pias e começa a falar, mais do que ouvir que era seu plano, sobre o órgão estudado e suas características. À vontade, deixa o fio de seu pensamento esticar até lonjuras insuspeitas, sem se preocupar com a didática ou perfeita exatidão científica.


Enquanto fala observa o semblante de cada um – talvez não de todos, alguns ainda o intimidam – e o que encontra são olhinhos perscrutadores, atenção interessada e até um sorriso, aqui e ali. Ele sabe que lavrou um tento.


Volta para o carro no estacionamento do campus e o arrepio lhe volta. Não pelo “Oh!”, não pelo ego – pois sabe que tem trabalhado direito, com amor e afinco – mas pela conquista daquele momento, em que conspiraram todos: a benevolência imensa de seu F***, que doara seu corpo à ciência de livre e espontânea vontade, a maturidade e o acolhimento da turma, o saber daqueles que habitam a alma de um cirurgião (qualquer cirurgião), os vetustos mestre retratados tão bem por Rembrandt ou Cronin, as horas de trabalho, suas, de seus pais e cônjuges, que o trouxeram até ali.


E agradeceu aos céus, se é que os há, ou aos deuses, se ainda nos voltam os olhos, ou a vida, esta abstração desconhecida, por estar ali. Por repetir com seus alunos o gesto psíquico primordial da profissão.


Pois sim: se o conhecimento não é mais árvore e sim rede, se a Medicina é cada vez mais tecnológica e menos humana, se desde o primeiro dia de aulas apresentamos o senhor paciente aos novos alunos; o momento sagrado que mistura deslumbramento, emoção e descoberta continua sendo aquele em que vislumbramos, pela primeira vez e por nós mesmos, a grande dádiva de estudarmos – in loco - a maravilha do corpo humano.


É ao debruçarmo-nos sobre os cada vez mais raros “F***s” de nossas faculdades que separamos o leigo do aprendiz, os meninos dos homens (e mulheres), e vislumbramos o imenso presente que recebemos da vida: somos médicos.


Um dia algum de vocês repetirá este meu gesto, cativará atenções diversas, cumprirá um pequeno papel na longa estrada da aprendizagem de outros alunos. Neste dia, aquele dentre vós que tiver esta oportunidade ou esta condição, saber-se-á inscrito na grande tradição, e será feliz como eu, por fazer-se útil em uma atividade sempre difícil, mas absolutamente necessária e emocionante.

Tags: anatomia, vida, mestres, medicina
Renato van Wilpe Bach
Enviado por Renato van Wilpe Bach em 13/11/2009
Código do texto: T1921470

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Sobre o autor
Renato van Wilpe Bach
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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