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" Lairzinha ficou de bem "

Evaldo da Veiga




Lairzinha ainda estava chateada por conta da tristeza.
Não deu ainda para perdoar minha ligação efêmera com Celeste.
O acontecimento não durou além de um breve instante,
 mas cristalizou-se no coração da Lairzinha.
Ela continuava olhando o céu quando passávamos um pelo outro
ou então cobria os olhos com a mão esquerda, mas os dedinhos
 indicador e médio ficavam separados e entre eles eu via os olhos clarinhos da Lairzinha e sabia que esses olhos também me viam.
Um dia Araponga passou na rua e como sempre a garotada gritou: -
ARAPOOONGAAAAAA !!!!
Ele disse palavrões, ficou possesso e investiu contra a garotada
que correu gritando : - ARAPOOOONGAAAA !!!
Nesse dia o pobre velho estava mais enfurecido do que nunca e
ameaçava com seu cajado rústico, feito de madeira braba e pesada.
Não tinha velocidade para pegar as crianças e isso aumentava
 sua revolta extravasada em vários palavrões que saiam 
de sua voz forte e anasalada.
Nesse dia eu estava sentado em um muro e como nunca mexi 
com os  velhos, ao contrário, sentia comiseração e respeito por eles, permaneci onde estava apesar da aproximação do Araponga que desfechou o cajado na minha cabeça dando vazão à sua revolta.
 Caí do outro lado do muro e desacordei.
Dois dias depois eu entrava em casa no colo do meu pai,
 tinha ficado dois dias no pronto socorro para avaliação e cuidado.
No portão estava Lairzinha e uma porção de vizinhos adultos
 e crianças, mas eu só via Lairzinha que me olhava como se eu tivesse vindo do outro mundo.
Meu pai me colocou deitado na cama 
e em volta as pessoas conversavam.
Lairzinha chegou bem pertinho e me deu um pacote de jujuba:
- é pra você, depois compro mais, eu tenho dinheiro... - disse Lairzinha.
Me espantei com ela tendo dinheiro porque ela não ia lá fora fazer compra para os vizinhos e assim não ganhava gorjeta. Perguntei onde ela arranjou o dinheiro e ela disse que pegou na gaveta
 da quitanda do pai. Fiquei preocupado e até nervoso e disse:
- olha, isso é pecado  e você pode ser presa pelo Sargento Victor,
promete que você nunca mais faz isso ? - E ela:
- só fiz porque não tinha dinheiro para comprar um presente pra você
que está dodói, faço isso mais não.

evaldodaveiga@yahoo.com.br
Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 23/07/2006
Reeditado em 20/10/2008
Código do texto: T200241


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Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 78 anos
952 textos (317385 leituras)
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Evaldo da Veiga