FILHOS DO RISO

J. Torquato

Pode ter sido a coxinha de galinha azeda que eles se alimentaram na noite anterior, as escondidas, desviando a verba destinada ao corte de cabelo do irmão mais novo. Pode ter sido a salsicha de madrugada, o certo é que a turma pré adolescente estava completamente desarranjada ao amanhecer com terríveis dores estomacais, e tome soro caseiro, e tome sanitário e gritos de acaba logo que já tou...

Bem o caso é que depois de meia hora de desespero e medicação, estava ainda deitado frente a TV e com uma tremenda dor de cabeça fruto das preocupações de um Pai adolescentemente inválido e temendo a piora dos sintomas nos três personagens principais e foco de meu desespero frente a minha incompetência e impotência diante de doenças de qualquer tipo, na família.

De repente ouço risadas triplas, gargalhadas provenientes de brincadeiras ou talvez causada por algum programa televisivo no quarto ao lado. Eram os “Doentes”

Como os tinha deixado após visitas intermináveis ao WC agendadas desde a madrugada, depauperados e cansados, visivelmente sonolentos, nunca imaginaria tal recuperação. Espanto I

Dormi sossegado aquela manhã compensadora da madrugada acordado e preocupado.

Ao me lembrar pela tarde seguida, de quando foi rompido um namoro de três meses com a mais velha (por volta de seus 15 anos), e das palavras saída entre lindas lágrimas: Nunca mais namorarei homem nenhum hã hã, homem não presta hã, só faz “a gente” sofrer e por aí, realmente demorou a eternidade de três semanas mais ó menos. E de novo havia brilho em seu olhar, sorriso madonense em seus lábios. Tava de novo namorando o gênero humano “que só faz a gente sofrer”. Então senti de perto, na carne, a fantástica sede de recuperação e vontade de viver plena desta juventude.

A Noite invadi sorrateiramente o quarto deles, dormindo, meus anjinhos (só ao sono) completamente despojados das máscaras diárias que começavam a curtir e formar para o resto de suas vidas, rendi minha homenagem a ele e a elas, tocando levemente esta moldura que ajudei a formar. Ressonando, lábios entreabertos e ainda rindo em seus sonhos juvenis. Ví que o pai que um dia foi assim forte e fraco, nunca mais teria esta capacidade, e que seja louvado Deus por dar aos aprendizes da vida esta constituição de apagar sempre o sofrimento, chutar a lata, e sair correndo, voando e rindo pela vida afora, em direção ao sua esperança, ao seu futuro.