Tarde de Verão

Sentou-se na varanda da casa e deixou a porta aberta, queria que a poeira do verão entrasse. Sorriu para a sombra das duas árvores a sua frente, lembrava de já serem grandes quando ela ainda era apenas uma pequena semente em sua mãe, como papai sempre tentava explicar, e se perguntava quanto tempo as arvores vivem, e se é mais agradável a vida lá em cima que aqui em baixo.

Gostava do cheiro dessa estação, apesar de não gostar do calor, era um cheiro seco e morno, não sabia explicar, e o cantar das cigarras sempre a fazia pensar no natal, elas sempre cantavam alto nesse dia, por alguma razão. Passaria todas as tardes sentada naquela cadeira de balanço se pudesse, sem fazer nada, talvez com um livrinho ou outro, e alguns copos de suco e chá gelado, mas apenas apreciando o aroma. Também lhe agradava o amarelado que as coisas tinham por essa época do ano, é como se o calor se manifestasse em tudo assim, compensando-lhes pelo desconforto e o cansaço, às vezes era isso mesmo.

Prestou atenção nos sons a sua volta por alguns instantes, parou de respirar o máximo que pode para não atrapalhar com nenhum ruído, era uma pequena sinfonia tão bonita, sua de tão secreta. Havia os pássaros cantando e piando pelo jardim, alguns melhor que outros, os micos procurando por comida pulando de galho em galho, o canário dos avós cantando no quintal de trás, a avó cantarolando pela cozinha enquanto fazia algo gostoso para mais tarde, e bem no fundo um leve zumbido da tv ligada no andar de cima enquanto o avô assistia o futebol, e depois de algum tempo e um quase sufocamento, a seu próprio som de existir fundindo-se a tudo. Essa seria uma atividade que faria pelo resto da vida, observar como tudo se conecta mesmo quando não se percebe, e apenas é preciso um pouco de atenção para ver, ou ouvir.

Malaguti
Enviado por Malaguti em 05/03/2010
Código do texto: T2121428
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