À comunidade ítalo-brasileira

Transcrevo, aqui, as palavras de Desiderio Peron, sobre a absurda Lei Nº 11.161, que trata do ensino obrigatório da Língua Espanhola nas escolas brasileiras.


REVER A LEI


       Nem o Português é o mesmo lá em Portugal, aqui no Brasil e nas demais nações que herdaram a língua de Camões na esteira das navegações e das colonizações. Nem o Espanhol de Espanha tem muito a ver com aquele praticado na Argentina, México ou na Bolívia. Assim como o inglês do império norte-americano já tropeçava nas diferenças entre a gramática e a difusa prática (e nem se fale de seu berço além-mar), tropeçava a seu tempo o latim do sempre lembrado e grandioso Império Romano. Da forma castrense de dizer as coisas, quase ininteligível para a literatura formal de então, nasceram falares tão diversas entre si, hoje todos com nome próprio, exceto o Ladino: Português, Francês, Espanhol... Castelhano. Castelhano? E o Italiano? Se se for mais além, fale-se Grego! E se procure saber se ele tem algo a ver, mais a oriente, com o alfabeto cirílico...
       Stop! Fiquemos só na banda ocidental do Planeta.
       A história das línguas é a história das culturas. E das dominações. Língua é dominação. Mas não é disso que se quer falar. Preferimos mergulhar no charme que cada língua encerra, o que ela representa e, no máximo, que prato novo quem dela se serve pode acrescentar em nosso receituário. Grazie, merci, gracias ou muito obrigado.
       Em Tupi – nossa língua original antes das dominações – como se agradece? Que diferença existia entre um “muito obrigado” nativo para além das entradas e bandeiras paulistanas e aquele murmurado por Iracema – a virgem com lábios de mel de Castro Alves? Como agradeciam os escravos e quantas eram as línguas por eles trazidas da África?
       O multiculturalismo e a pluralidade étnica de que tanto se orgulha o Brasil oficial já não faz mais jus à sua história. Perdemos, ainda na largada, o charme indígena rapidamente escravizado à saúde do acento português das terras e mares nunca d’antes navegados. Pois, pois, já faz tempo. Depois, pouca pelota – aliás, nenhuma, historicamente falando – deu-se ao falar dos sotaques africanos que, apesar de escravizados, geraram mucamas e amas-de-leite para nobres livres e adoutorados.
        Mas do Francês procurou-se o charme de uma época, até do Holandês herdaram-se possibilidades momentâneas logo dissipadas a disparos de bacamarte. Do alemão, assimilaram-se fragmentos mais pelas dúvidas que antecederam a tragédia da II Guerra Mundial que pela escancarada realidade de uma parte de nossa miscigenação, assim como do italiano (e no Brasil vive a maior comunidade itálica do mundo, contada para além dos 35 milhões de almas), do Polonês, do Japonês, do Espanhol e por aí afora – gente de todo o mundo que ajudou a construir uma pátria, cada um com seu falar, sua cultura, sua tolerância, sua aceitação. Sem fronteiras internas e – maravilha da nova era! – agora sem fronteiras, também, externas, já que cada um vê-se multiplugado com sua aldeia original, na dependência crucial do que restou do falar de cada um de outrora.
        Então, por que razão vem o Estado tentar, outra vez, impor tendências restritivas, se a ordem é plural (para não repetir o termo “global” da moda) como é pluralista a nossa sociedade? Por qual escura razão e em nome de quem ou de quê, como em velhos tempos, destruir nossa maior riqueza que seria essa babel impondo o que fazer em vez de permitir (e incentivar e garantir) a vontade de dizer de todas as formas e maneiras, preservada, naturalmente, a língua nacional que já há muito escolhemos?
        Sinal nosso de inteligência seria rever a lei, para permitir que cada etnia de nosso mosaico escolhesse que língua quer “obrigatoriamente” estudar. Nesse mundo cada vez mais global, o Brasil lucraria com isso.

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Revista Insieme, fevereiro/2010, pag.11
Desiderio Peron é jornalista, diretor e editor da revista Insieme.

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