O avião a minha espera


Acordei no meio da noite, sobressaltada. O quarto continuava como antes, abarrotado de coisas fora do lugar. Preciso colocar tudo no lugar, antes de viajar, pensei.

Por que as coisas precisam estar no lugar, perguntei-me. Quem determina esse tal de lugar? Por que elas não podem ficar no lugar onde estão? Porque me incomodam se estão fora do lugar, respondi a mim mesma. E se nem dez anos de terapia resolveram meu problema de culpa não será agora que eu o resolverei.

Vou viajar! Vou viajar mais uma vez uma viagem que nem sonhei fazer. Mas vou gostar, eu sei. Sempre gosto quando estou lá, o problema é me preparar. Detesto me preparar para qualquer viagem, seja para longe, seja para perto, é sempre um suplício. Não gosto de pensar antes, mas sou obrigada a pensar. Planejar. Será que não dá para ir e deixar as coisas acontecerem como tiverem que acontecer? Afinal, é sempre assim que acontece. Sem nenhum controle, não temos mesmo controle, para que tentar? E eu nem quero ter esse controle, não quero.

Para onde vou? Eu sei para onde vou porque me contaram. Não li nada a respeito, nem pensei. Eu apenas vou. Convidaram-me e eu aceitei. Lá, me surpreenderei e é a surpresa o que mais me fascina.

Tenho que esquecer meu suplício e arrumar as malas. A mala, uma única e surrada mala, com o mínimo dentro, o suficiente para manter o conforto e a higiene. Tudo combinadinho para o pouco virar muito, mas conseguir isso é trabalhoso. Sonho com o dia em que todas as roupas serão descartáveis: comprar, usar, jogar fora. Ai nem vou precisar de mala. Só de um lenço e os documentos. E a máquina fotográfica. É totalmente necessário aprisionar as lembranças se não elas escapam para o mais fundo da alma.

A pressa está chegando e quando ela chega tudo fica confuso e atabalhoado. Mas é preciso agir porque o avião não nos espera. Chegando a hora de partir, ele partirá, estando eu lá ou não. E eu com tanta coisa para fazer, ainda tenho que pensar em fazer mala? Ah, sabe do que mais? Vou virar para o canto e voltar a dormir. Amanhã penso nisso. Amanhã... se houver o amanhã.

(Para a série: de trás para a frente ou de frente para trás, tanto faz, leia como lhe apraz)