QUAL O PROBLEMA DE AMAR?

Tem gente que tem vergonha de amar. Que esconde. Que quando alguém chega perto, disfarça a voz de neném, separa do beijo molhado, devolve as mãos para o bolso. Em compensaçõ, tem gente que não tem vergonha de exalar grosseria, de gritar preconceito, de disseminar humilhação. Tem gente que acha bonito a distância. Tem gente que acha chique separar.

Mas qual é mesmo o problema de amar?

Em algum momento definiu-se que amar não é legal. Que amar demonstra fraqueza, que amar, assim, em público, para todo mundo ver, é praticamente bancar o palhaço. Tem gente que acha o amor uma dor de cabeça, algo a ser resolvido, superado, transposto. Um engodo. Tem gente que chega a evitar o amor, para se "preservar". Que coisa. Hoje em dia, o que parece, é que amar é brega. Amar é brega?

Depende.

Amar escandalosamente, amar de corpo em corpo, amar a Deus dará é muito cool. Porque nosso mundo é feito de extremos. Se o caso é amar, tem que amar com desespero, tem que fazer da vida uma maratona amorosa, tem que deixar rolar tudo o que tiver que rolar. Aí sim, o amor é fashion. Aí sim, o povo vai, além de aplaudir, imitar.

Então esse é o problema de amar!

Amor comum, amor de brilhar os olhos, amor de rir à toa, amor de falar bobo... Não tem graça. Não é notícia. Não move o mundo. Amor faz toda a gente ser gentil e para que serve a gentileza em uma sociedade dura? Em uma sociedade onde vence quem tem menos escrúpulos? Quem pisa nos outros com mais desenvoltura e menos piedade? Pisa e ops... Nem vi! Pisa e ops... Já era.

Amar, todo mundo ama.

Só que cada um escolhe a maneira de amar. Amar pode ser feio, sim. Tem gente que ama de um jeito que seria melhor até nem amar. Tem gente que ama doído, amargo, cruel. Tem gente que confunde amar com odiar. Tem gente que nunca foi amado e acaba achando que qualquer porcaria que fizer já está de bom tamanho. Só que não está.

Tem que amar direito.

Tem que pegar o amor que sente e transformá-lo. Porque o amor é moldável. O amor é uma massinha de modelar. Dá para pegar o amor de dentro do peito e transformar em um bom-dia, em um agradável ambiente de trabalho, em uma visita aos amigos, em mais amigos, em um favor a alguém que precisa, em um cumprimento na rua, em um "pode passar" para o outro motorista, em um afago na família, em uma história engraçada, em um consolo, um conselho, um elogio, em uma palavra de incentivo, em um ato humanitário, em um voto consciente, em defesa dos direitos de todos sem levar em conta os interesses individuais, em boa vontade para ajudar, em consciência, em bondade, em bem-querer, em um dia maravilhoso, em uma alegria constante, em beijos longos e ardentes, em filhos cidadãos e boa gente, em um abraço gigante que alcance o mundo e a vida e a própria existência.

O amor não tem problema, não. O problema é não amar.

Mulher de Sardas
Enviado por Mulher de Sardas em 06/09/2006
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